WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

Categoria: Wagner Rodrigues

  • Menina negra com vestido azul e cestinha de vime

    No penúltimo domingo de outubro, saí com a família para almoçar num restaurante oriental que não conhecíamos ainda.

    O restaurante escolhido fica na Rua Bela Cintra. No caminho, ficamos um pouco apreensivos, pois ocorriam manifestações políticas na Avenida Paulista, que deixamos de considerar.

    A decisão foi de última hora e não houve problemas em conseguir as três reservas para minha família.

    Chegamos sem contratempos apesar da confusão na área e o almoço foi agradável. Boa comida, mais cara do que costumamos gastar nesses dias de almoçar fora de casa, mas compensada pela atenção dos funcionários e pela comida farta e esmerada.

    Havia casais e filhos pequenos com as tradicionais camisetas da seleção brasileira usadas pelos manifestantes mais conservadores, outras famílias vestidas informalmente como nós, casais de namorados, turma de amigos. A frequência era boa, mas o restaurante estava bem aquém da lotação, mesmo em tradicional horário de pico.

    Resolvi escrever essa crônica, não pelo restaurante, a comida ou a atenção dos funcionários, mas pelo que ocorreu logo depois enquanto esperávamos o carro junto ao abrigo de sol dos manobristas.

    Uma menina pequena de aproximadamente seis a sete anos, aproximou-se de minha filha e ofereceu-lhe um pano de cozinha bordado.

    A menina era negra e vinha esmeradamente vestida, com um vestidinho estampado, os cabelos bem arrumados, rabo de cavalo alto.

    As três toalhinhas vinham caprichosamente dobradas de forma alongada e cuidadosamente organizadas em uma linda cestinha de vime.

    Na minha cabeça, passaram todos os sentimentos típicos de uma ocasião como esta.

    O sentimento de pena pela criança, talvez sendo usada por seus guardiões, a dificuldade de vida de algumas pessoas, a revolta pela forma deficiente e injusta da educação no país e outros sentimentos que se contrapunham ao ver a menina com seu rostinho simpático e tranquilo, o cuidado com que vinha vestida, o esmero na forma como se preparara para oferecer seu produto.

    Pensei que poderia estar sendo explorada, que o lugar de criança seria brincando e coisas do gênero.

    Depois, escolhi pensar no que poderia ser bom no que ocorria, principalmente pelo que aconteceu em seguida.

    Minha filha inicialmente se desculpou por não poder aceitar a oferta da menina por não carregar dinheiro em cédulas compatíveis com o preço pela toalhinha acomodada na cestinha de vime. Depois, comovida pela graça e olhar da menina, perguntou se acaso ela tinha um PIX para o pagamento.

    Diante da resposta positiva da menininha, “Tenho sim”, preparava o celular quando intervi lembrando que eu, extraordinariamente, tinha uma nota de vinte reais na carteira.

    A menina pegou a nota, guardou-a num bolsinho e ofereceu a cestinha à minha filha:

    -Pode escolher!

    Minha filha pegou uma das toalhas quando minha esposa interveio, perguntando se a menina aceitaria a toalha de volta, como um presente para vendê-la novamente.

    Ante o olhar desapontado da menina, tentei insistir, mas percebi nosso erro.

    A menina se considerava uma vendedora. Aliás, uma excelente vendedora. O que oferecia eram esses paninhos para secar louça, bordados com delicadeza. Ela se preparara para vender o produto. Vinha com seu lindo vestidinho, bem passado e estava lindinha, com seu cabelo preso e arrumado.

    As toalhinhas estavam bem dobradas e perfeitamente organizadas na sua cestinha de vime.

    Ela estava lá, caminhando de um Vallet a outro, oferecendo seu produto com todo seu ‘marketing’ cuidado. Vendia tudo isso. Vendia sua simpatia, a distribuição, a apresentação do produto. Vendia como boa vendedora que é.

    Ela esperava o pagamento pelo seu produto e que seu produto encontrasse o comprador satisfeito com tudo, talvez até com os próprios sentimentos.

    Ela não pedia ajuda ou esmola. Ela estava lá, produzindo sua contribuição ao produto interno bruto do seu país.

    Ela não buscava bolsa família para sua condição. Ela estava resolvendo sua situação com muito esmero e dedicação e estava fazendo isso muito bem.

    A toalhinha veio conosco e nos será uma lembrança querida desse encontro.

    Pensei que a experiência vivida podia ser o símbolo daquilo em que acredito e que precisa ser valorizado. O trabalho com dignidade e a possibilidade de prover para as próprias necessidades.

    Pode ser uma visão ingênua essa que escolhi. Mas quero ficar com ela.

    Em um chocante contraste, nos deparamos a seguir com um pequeno grupo de motoqueiros com a camiseta brasileira, acelerando desnecessariamente e de forma extremamente agressiva suas motos ultra potentes. Pareciam marginais ricos e ignorantes. Um era mais velho e carregava mini tonéis de cerveja na garupa. Tinham bandeiras brasileiras, mas, na sua estupidez, apenas contribuíam para o que pensam os esquerdistas mais extremos.

    Almas pobres e indignas que deveriam se espelhar e se envergonhar perante o que nos mostrou a pequena vendedora de toalhinhas bordadas.

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  • Foice e martelo

    Em economia, nem sempre o que é elegante é eficiente.

    Usei a palavra elegante, mas podia usar outro termo… bondoso, social, justo, caridoso. Entretanto, todos esses termos referem-se à aparência, não à realidade.

    A explicação pode ser tão simples quanto ‘responsabilidade’.

     Na economia doméstica, para aquele ou aquela que exerce a administração financeira, a responsabilidade pode parecer severa e antipática. Os termos usados para definir uma e outra forma de atuar, frequentemente, são enganosas. Conservador ou progressista… qual é o melhor?

    Progressista deveria resultar em progresso, desenvolvimento… permitindo uma vida melhor. Mas não é assim. Progressista, como temos na nossa administração pública, significa inconsequente e até injusto. Partidos progressistas querem resolver “na marra” aquilo que eles definem como socialmente injusto.

    Mas qual teria sido a injustiça?

    Se olharmos o desenvolvimento do sul, sudeste e centro-oeste do país encontraremos um bando de exploradores?

    Famílias da classe média baixa, que se desenvolveram de imigrantes das mais diversas etnias, trabalharam fortemente na agricultura. Japoneses, italianos, alemães, portugueses chegaram como se diz, com uma mão na frente outra atrás. Deram duro, sacrificaram-se para que muitos de seus filhos pudessem estudar e, eventualmente, ter uma vida melhor. Alguns desses descendentes esforçaram-se mais que outros. Tinham mais talento, talvez. Outros conseguiram ter decisões de maior êxito. Nunca foi ao acaso ou sem esforço. Esse esforço ajudou a impulsionar e dar maiores chances a seus descendentes. Seria essa a injustiça?

    Para os progressistas, entretanto, esse esforço, que resultou em maior progresso em algumas regiões, foi injusto.

    O argumento é de que classes menos favorecidas tiveram menos oportunidades e agora merecem outro tratamento.

    Talvez seja verdade. Escolas públicas tem estado cada vez mais, muito aquém de escolas particulares de bom nível. Entretanto isso nem sempre foi verdade. Pelo contrário, escolas públicas nos anos 50, 60 e até parte dos anos 70 eram tão boas, senão melhores, que a maioria das escolas particulares.

    A solução dos progressistas é criar quotas em faculdades públicas para algumas minorias. Ou seja, admitir estudantes com bastante defasagem, em concorridas universidades. Isso foi feito ignorando o problema real, ou seja, deterioração da escola pública e da carreira de professores em geral. A solução deveria ser corrigir o problema. Não a consequência.

    Os progressistas insistem na solução que não resolve, mas mantém o problema e até o agrava.

    Isto teria sido apenas uma decisão absurda? Acredito que não. Na democracia brasileira qual a grande maioria que vota nos chamados progressista? Os resultados das urnas, há muito tempo, mostram que os votos progressistas se concentram no norte e nordeste, onde existe maior pobreza e pior educação (com raras exceções). Assim, o que parece, é que esse grupo de político procura manter a ‘galinha dos ovos de ouro’ bem vivinha.

    Progressistas brasileiros necessitam de uma maioria de miseráveis e necessita mantê-los assim. Democraticamente miseráveis.

    Nosso “conservadorismo” é um conservadorismo econômico, mais que social. É diferente do conservadorismo norte americano e europeu que tendem à xenofobia.

    Os estados que produzem mais riqueza estão cansados de trabalhar e gastar muito para manter a outra metade dos estados à deriva.

    Isso pouco muda. Muda muito menos nas mãos dos que nos enganam com um discurso social e uma ação de manutenção da status quo.

    Parece óbvio que um país que queira distribuir riqueza precise produzir mais riqueza. Só riqueza vale a pena ser distribuída. O que nossos progressistas fazem é distribuir pobreza. Trazendo mais miséria para os estados que mais produzem. Assim são pensadas as recompensas dos partidos progressistas.

    O que acaba acontecendo é que metade do país trabalha, enquanto outra metade apenas sobrevive, sem conseguir sair da situação de pobreza. Ocorre uma distribuição da miséria, do norte e nordeste para o resto do país. Não uma distribuição de renda, pois não há o que distribuir. O país, que seria um país em desenvolvimento, quase não se desenvolve.

    Outra trágica consequência ocorre nas grandes cidades dos estados. Por alguma possibilidade de trabalho, nelas se aglomera a população empobrecida pelas decisões progressistas. Esse grupo é outra massa de manobra da esquerda esperta.

    Para eles ocorre outra tragédia. A tragédia da desregulação fiscal do país com duas gravíssimas consequências. A inflação e os altos juros.

    Novamente os progressistas de plantão atacam a consequência, não o problema. A solução para essas duas terríveis mazelas deveriam ser responsabilidade fiscal. Não gastar mais do que arrecada, inclusive gastos com juros. Não tratar de comprometer o déficit primário (sem os juros), mas o déficit como um todo. Só assim esses monstros da economia seriam derrotados.

    Ao invés do governo progressista tomar a si a responsabilidade da administração financeira, eles repassam essa responsabilidade a todos, ricos e, muito pior, pobres.

    Os miseráveis que já não estudam de forma adequada, nem tem possibilidade de se manter devem resolver sua trágica situação. Recorrem a dívidas com juros absurdos, principalmente porque muitos quebram sem poder pagar.

    Esses “progressistas” culpam os bancos, com o lado da boca, claro, pois sabem que neste caso, juros altos para essa classe de tomadores resultam do risco de não pagamento.

    Os pobres, sem escola adequada, são os que têm que se fazer de ministros da fazenda do país.

    Esse país de desigualdades estúpidas continuará um país com maiores desigualdades, ainda mais estúpidas. Não pela ação de um bando da extrema direita que pensa em proteger uma minoria mais rica. Esse país de desigualdade está permanecendo desigual pela perversa lorota contada por esses aí que se dizem progressistas e por todos os que mamam nessas tetas emagrecidas, inclusive parte de nossos jornalistas que ajudam a tratar as consequências, não os reais motivos da nossa desgraça.

    2 respostas a “O PREÇO DO SOCIALISMO POPULISTA”

    1. Avatar de
      Anônimo

      Vagnão, você sempre muito sábio. Parabéns pelo texto, meu Amigo.

      W.Figueira

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      1. Avatar de Wagner Rodrigues Poeta e Cronista

        Gentileza sua, querido amigo! Saudades de muita coisa que fizemos juntos. Abraço a você e a sua maravilhosa família.

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  • Fantasy courthouse labeled “SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL” above waterfalls, with Lady Justice
    Ficou claro o que pensa nossa justiça suprema. Para defender seus interesses só a forma é o que importa. A verdade ou os fatos de nada valem.
    Aliás nem é a forma, mas a quem alguma forma possa servir.
    Do mesmo jeito em que o crime teria sido cometido pela justiça de Curitiba e pelas das estâncias que confirmaram justas sentenças, novamente, os verdadeiros criminosos são declarados vítimas. Tudo porque fatos não são acolhidos lá no alto da nossa justiça. Para eles, fatos criminosos não importam… só importa o rito. Se falhou o rito, na opinião de quem tem o poder, já não há o fato.
    Se funcionou antes… vai funcionar comigo.
    Como dizia o poeta, vou embora para Pasárgada. Afinal é bom ser amigo do rei. Acontece que somos todos as mulheres do reino. Só nos resta deitarmo-nos nas camas escolhidas, preferencialmente em decúbito ventral e esperar o inevitável.
    O show de horrores que ocorreu na fria terça feira de 15 de setembro de 2026, infelizmente, não surpreendeu ninguém. Apenas deixou claro que nossa Constituição está com a porta aberta e com a chave na ignição.
    Aquilo que poderia ser o início da redenção da nossa consciência, do nosso zelo, da nossa pátria, apenas concretizou que estamos sem proteção.
    A lei está a serviço de seus controladores, não a serviço da justiça e muito menos a serviço do cidadão de bem.
    Deve temer quem ansiava por justiça, pois só caberá choro e ranger de dentes aos que ousaram ter esperança.
    Esses poderosos, que apenas podiam ser vigiados por seus pares, agora podem relaxar. Seus pares escolheram a impunidade geral e irrestrita deles mesmos. Como disse um dos ministros em sua toga, o voto ignorará a opinião pública!
    O que, afinal, significa que a opinião pública não conta?
    Na minha opinião, significa que a tal da Constituição mentiu quando tentou dizer em seu preâmbulo:
    “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.”
    Se quem redigiu a constituição se dizia “representantes do povo brasileiro,” como pode a opinião pública não contar?
    Em que raio de “democracia” alguém imagina que sabe melhor o que é bom para o “povo brasileiro” do que a opinião que os cidadãos expressam?
    Se o povo é considerado “massa de manobra” e que sua opinião pública não vale nada, como podem os “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte” ter legitimidade para redigir alguma coisa?
    Digníssimos, com todo respeito com a função que ocupam, a opinião do povo vale sim. A opinião do povo, em sua maioria, escolhe todos os seus representantes para dirigi-los e esses representantes acabam por escolher quem veste a toga máxima do nosso país. As vossas togas.
    Quem veste a toga dessa instituição magna, eu acredito, deveria zelar por sua conduta. Não o zelo de todo cidadão comum, mas o zelo exemplar em todos seus atos.
    Isto, já faz muito, não ocorre.
    Para mim, já não importa mais desmoralização ou redenção.
    A democracia já foi destruída.

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  • Four generations labeled Baby Boomer, Generation X, Generation Y, and Generation Z at a café

    Eu estava iniciando minha carreira como gerente de pessoas tardiamente, com a mesma idade em que Cristo se aposentou, sem me dar conta que eu era um “baby boomer”.

    Havia sido contratado pelo primeiro doutor em psicologia do trabalho do Brasil para estagiar no departamento de Relações Industriais (hoje seria Recursos Humanos). Claro, naquela época deixava-se de lado a hipocrisia e se atuava naquilo que era o objetivo principal da tal função. Óbvio, atrair a melhor força de trabalho e mantê-la ao menor custo, fatores importantes para garantir competitividade em qualquer tempo. Evitar atritos entre os concorrentes, enquanto corria a luta franca, não parecia ilícito. Era o que se fazia.

    Fui contratado no mesmo dia em que iniciei meu curso de Engenharia Industrial na universidade da Rua Itambé, 45. Era por lá que se chegava ao prédio da Faculdade de exatas, na época.

    Na segunda metade da década de oitenta eu já estava na fase da minha profissão na qual me estabeleci – finanças – e era responsável pelo grupo de Planejamento Estratégico e Análise de Negócios da multinacional na região Brasil.

    Lembro-me bem que a então diretora de Recursos Humanos fazia uma apresentação aos gerentes e diretores sobre as mudanças gerenciais necessárias para acolher a geração X. Uma abordagem óbvia para os objetivos da função dela e da gerência em geral.

     Lembro-me que não reagi de forma tão compreensiva como agora.

    Pensava no que se passava realmente nas cabeças desse pessoal que chega à idade de passar da fase de só aprender para a de ter que produzir e conseguir recursos para sua própria manutenção. Imaginava se a mudança nas circunstâncias havia, de fato, mudado a essência desses jovens. Não acreditava nisso, achava que o essencial, o que faz as pessoas se moverem, não tinham mudado na verdade.

    Não me parecia que as mudanças, embora significativas, pudessem mudar – de fato – a essência humana daqueles jovens.

    Os jovens da minha idade saíram de um mundo quase não tecnológico para um mundo absolutamente tecnológico, quase que em um flash de luz. Na minha infância não havia televisores nas residências, não havia calculadoras nas escolas, nossos pais não tinham carro, os recursos e informações eram escassos e estavam longe de nós… em enciclopédias e livros das bibliotecas.

    Tive aulas de cálculo numérico para exercitar a habilidade de arredondar e estimar valores de forma ágil. Aprendi a usar régua de cálculo para a Engenharia. Régua de cálculo! Algo tão inútil hoje quanto pombo correio.

    Nos primeiros poucos anos eu já estava com computador pessoal na minha mesa e tendo que ser hábil ao usar planilhas. Pior, esse avanço foi em muitas etapas e tudo mudava e obsolescia em meses, não anos. Xerox, telex, cartão perfurado, cassete, CD e assim foi.  

    Os profissionais que nos precederam passaram por uma experiência na qual o aprendizado escolar teve uso quase pleno. Os baby-boomers tiveram que viver a novidade. Pior ainda, viver novidade e novidade, dezenas de viradas de mesa. As ferramentas se renovavam, a linguagem de trabalho e das ferramentas de trabalho mudavam, as salas de trabalho mudavam, todas as relações de trabalho mudavam… Algumas motivadas pelas necessidades aparentes de X, Y e Z de fato (afinal, quem foi o incauto que resolveu começar em X?).

    Isso teria mudado o que movia minhas necessidades, medos e desejos de forma essencial?

    Eu sempre acreditei que, se nossas angústias eram diferentes, eram diferentes apenas porque as causas eram diferentes. Acreditava que os medos e desejos eram, na sua essência, mesmo antes de que os primeiros psicanalistas pensaram no assunto. Era nisso que acreditava.

    A situação era diferente, mas a essência das angústias, o âmago do que toca nossa alma, isso não era novidade.

    Não havia ouvido em pulsões de morte e pulsões de vida, Eros e Tânatos, vida e morte, medo e prazer fluindo sobre o manto das circunstâncias. Entretanto, imaginava que desde que o homem pode se dar conta da sua consciência, da sua existência, aquilo que lhe motiva ou lhe reprime são fatores bem básicos e fundamentais. Teria havido tanta mudança que isso deixasse de ser verdade?

    Penso que almas pouco mudam. Almas como expressão de consciências. O que mudam, acreditava, eram os cenários onde a atuação existe. Não seria assim?

    Ser jovem e envelhecer. Desejar e temer.

    Esse movimento do desejo de vida e do medo da morte transformam o desejo até que este esvaneça, até que só reste o medo… ou até que nem este consiga existir.

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  • Tarso Evangelista é um dos homens mais íntegros que conheci. Hoje tem pouco mais de 60 anos. Agora aposentado de seu trabalho na área financeira passou a fazer aquilo que sempre gostou. Pesca esportiva, jogar tênis e escrever. Tarso sempre quis escrever, mas ou lhe faltava mais talento ou indicação para que vivesse como escritor. Ao menos ele se diverte com sua produção singela.

    Disse que Tarso é um homem íntegro e devo explicar. Integridade não é mérito, que esteja claro. Integridade deveria ser obrigação de cada um de nós. Infelizmente algo tão necessário e tão óbvio não é tão abundante como deveria, então, receber tal qualificação pode parecer elogio.

    Sabemos também que integridade não é algo absoluto. Um parente não tão próximo, pequeno industrial do interior, qualificava-se como íntegro porque, ao contrário de outros colegas de atividade que sonegavam todos os impostos, ele procurava despachar seus produtos com cinquenta por cento dos volumes declarados nas notas fiscais. Recolhia, assim, metade dos impostos de ICMS e IPI devidos.  Esclarecia que precisávamos pagar impostos para que investimentos públicos fossem realizados. Era, dessa forma relativa, que descrevia sua probidade.

    Tarso sempre foi severo com sua integridade. Não por ser religioso ou para buscar reconhecimento de alguém, afinal nunca o vi buscando aprovação ou reconhecimento e, como muito interessado em ciência, não conseguia estar ligado a nenhum tipo de filosofia religiosa.

    Apenas para dar um exemplo da graduação da integridade de Tarso, ele sempre se ofendia quando a secretária do seu médico perguntava se a nota fiscal da consulta de seu filho era para fazer em nome do filho ou dele Tarso, que pagava a conta. Ele se irritava e assegurava que não pretendia corrigir a lei fiscal com artimanhas. “Não posso incluir nas minhas deduções de imposto de renda algo que não gastei comigo mesmo.” E repetia a atitude em quase toda sua vida.

    Por que estou falando com vocês sobre esse meu amigo? Deixe mostrar-lhes a seguir.

    Tudo começou com uma das pouquíssimas vezes em que Tarso cedeu a seu costumeiro rigor.

    Há alguns anos Tarso tinha sua mãe ainda viva, com boa saúde, vivendo na casa que orgulhosamente havia ajudado o falecido marido a construir. A casa tinha sua cara, com sua forma de viver e com o jeito do que imaginara ser um lar. Mulher do lar como suas amigas, orgulhava-se de como mantinha tudo muito limpo e muito lindo dentro daquilo que conhecia.

    Entretanto a velhice chegara e, então viúva, carecia de ajuda, pois sair daquela casa para viver com algum dos filhos lhe era totalmente inaceitável.

    A solução foi encontrar algum profissional. Então, esquecendo o cinismo de gênero que nos cobram hoje em dia, Tarso foi procurar uma cuidadora que ajudasse na casa da mãe e lhe fizesse companhia. Uma mulher seria melhor aceita pela idosa, imaginou Tarso.

    Felizmente, isso pensava Tarso, havia uma pessoa que já cuidara de outros pessoas fora e dentro da própria família. Uma pessoa em quem Tarso acreditava poder confiar e se sentir seguro para deixar com sua mãe.

    Tratava-se de Evelina Santos Pereira. Diarista de relativo empenho, com boa proza, alguma escolaridade básica, boa aparência, descendência ibérica bem parecida em forma e estilo com a mãe de Tarso.

    Evelina, desquitada e com filhos com vida não resolvida, precisava trabalhar para viver. Não era jovem, mas não era velha. Na verdade, já havia passado do meio século e parecia ideal para acompanhar esse final de vida da mãe mais idosa.

    Combinado o salário desejado para as oito horas diárias ela começou sua atividade e, vencida a resistência da velha senhora em ter uma desconhecida em casa, a mãe de Tarso começou a ficar bem satisfeita com a companhia e com o alívio nas tarefas diárias. Obviamente tudo foi feito dentro da lei das domésticas, com carteira assinada, registro no e-social, como seria de esperar que fizesse Tarso Evangelista.

    Dona Evelina também estava muito feliz. Desquitada e solitária, agora tinha companhia. O trabalho era leve, pois havia uma diarista que fazia a limpeza mais pesada da casa. A diarista vinha duas vezes por semana. Então, para Evelina ficava o mais simples e mais leve. Ao chegar tomava café sossegadamente com a mãe de Tarso, mais tarde fazia ou esquentava o almoço, lavava a louça, batia o papo da tarde e assistia missa na TV que ambas adoravam. Era ideal para Dono Evelina ‘brincar’ no celular, com gostava. A pedido de Tarso, também verificava que a velha senhora tomasse os medicamentos nos horários.

    Pouco mais de um mês depois do início do trabalho, a cuidadora procurou Tarso com uma proposta. Foi aí que o embrolho começou.

    “Sabe, Seu Tarso, eu gosto muito da Dona Eloá. Ela também me adora. À noite, quando eu vou para casa fico muito preocupada dela dormir sozinha. Sabe, ela pode sentir alguma coisa e até o senhor chegar pode acontecer alguma coisa.”

    “Minha filha também foi despejada e ela foi morar no meu apartamentinho. Estou muito contente com a companhia da minha filha e do meu neto. Todos lá no meu apartamento sobre a venda do Seu Manoel.”

    “Mas eu pensei que eu podia vir dormir aqui com a Dona Eloá. Assim eu faço o jantar, faço companhia para ela à noite e fico mais sossegada.”

    “Também não tenho que gastar duas horas para vir de casa e outras duas horas para voltar. Sabe a cidade está muito perigosa e eu tenho que trocar de condução e andar à noite lá no bairro. É muito perigoso e aí a Dona Eloá pode ficar sem cuidadora de novo.”

    “Então… O senhor me disse que além do meu salário o senhor gasta um monte com as taxas do governo, não foi? Eu já tô aposentada, nem preciso mais desse negócio de pagar para aposentadoria. Aí, eu pensei que se o senhor me pagasse um outro tanto de hora extra eu dormia aqui. Ficava até em algum fim de semana e minha filha…”

    “Esses vinte porcento que o senhor paga pro governo, não paga não. Não precisa, já estou aposentada. O senhor me paga um pouco mais pelas horas e pronto. A Dona Eloá fica contente, eu fico contente e o senhor pode ficar supertranquilo que sua mãe vai ficar muito bem cuidada.”

    Tarso imaginou que, talvez, Dona Evelina tivesse razão. Sua mãe estaria bem segura e teria companhia. E não registrar essa parte das horas extras realmente permitiria dar um bom acréscimo à cuidadora sem afetar demais suas finanças. Afinal Dona Evelina era conhecida na família fazia umas duas décadas. Até já dormira na casa de uma idosa terminal. Entendia que era de total confiança.

    Foi assim que Tarso distensionou um pouco seu critério de integridade, claro que não tanto quanto fez meu parente empresário com o ICMS. Mas cedeu ao bom sendo de Evelina.

    Tarso pouco mais que dobrou o pagamento a Dona Evelina com o novo esquema de trabalho. Era ‘justo’ pois ele não pagava os pouco mais de vinte porcento de e-social relativo às horas extras. Dona Eloá estava feliz com a companhia e Dona Evelina, esta exultante com a nova moradia ‘tão próxima do seu trabalho’ e com o ‘bom’ dinheiro a mais que estava recebendo. Casa e comida todos os dias, sem preocupação com os cansativos deslocamentos e sem o neto enchendo o saco no apartamento minúsculo de periferia.

    Seis anos de felicidade geral se passaram e as páginas do Facebook e Instagram registravam a feliz convivência. Dona Evelina e a família ficaram íntimos de Dona Eloá e as visitas frequentes ocorriam mais de uma vez por semana. Netos e filhas frequentemente faziam suas refeições com as duas senhoras. Comemoravam as festas usuais por conta da Dona Eloá. Eram carinhosos e amados na residência e retribuíam o carinho.

    “Hoje é dia da cuidadora! Eu adoro minha profissão. Parabéns a todas as cuidadoras!” Evelina registrava nas suas páginas eletrônicas.

    Assim foi até o dia em que o coração de Dona Eloá resolveu que já havia feito seu trabalho.

    Então as máscaras foram caindo rapidamente.

    Como era de se esperar, Tarso pediu para a empresa de contabilidade calculasse o que devia no encerramento do emprego de Dona Evelina, pagando o que lhe era devido até com uma pequena gratificação.

    Evelina queria porque queria uma tal de indenização por tempo de serviço que lembrava que seu avô recebera um dia. Tarso explicou-lhe que agora isso fora substituído pelo ‘fundo de garantia’ que ela poderia retirar agora com o governo.

    Inconformada e sem avisar, Evelina procurou o sindicato das empregadas apenas duas semanas após a morte de Dona Eloá. Na porta da cadeia, quero dizer, do sindicato, encontrou o Dr. Careca, apelido anatômico do advogado bem safado que ficava à espreita de empregados reclamantes para tentar uma brecha para atacar patrões incautos. Dr. Russo de Orleans e Bragança entrevistou Evelina e logo percebeu a oportunidade. As horas extras não registradas iriam virar salário fora do e-social! O salário agora quase triplicado iria requisitar horas extras atrasadas por vinte e quatro horas de ‘escravidão’ acrescentados de fins de semana e feriados eventualmente não pagos. Em sua esperteza e experiência usou o processo ‘modelo’, definindo um caso trabalhista milionário para a assalariada que ganhava pouco mais de dois mil reais mensais antes das fatídicas horas extras concordadas. Apenas trocou nomes e valores e protocolou a demanda.

    Ou seja, mesmo tendo pagado integral e generosamente todas as horas extras de ‘sossego’ e convivência de Dona Evelina, com comida e total liberdade de toda a família na casa de Dona Eloá, um processo trabalhista contra o empregador foi instaurado, reclamando tudo de novo, só que mais que triplicado.

    Encerramos assim a descrição e consequências nefastas do descuido de integridade do Senhor Tarso. Assim seguiu um sofrimento que culminou em fechar um acordo por exaustão e tristeza.

    Já no ramo dos outros personagens do processo trabalhista, parece que ninguém tem qualquer ‘escrúpulo’ com integridade.

    O advogado de porta de sindicato já dera tantos golpes que nem precisa escrever o processo. Apenas mudava nomes e alguns valores e já estava pronto para protocolo no devido fórum. A partir da sedução inicial, garante uma taxa de sucesso exorbitante. Ora se a empregada irá receber um milhão de reais depois de receber de salário base pouco de cem mil reais durante seis anos de trabalho, que custa pagar uns trezentos mil para o Dr. Careca.

    Ao longo do tempo, quando a representada percebe que o milhão se reduz para cem mil reais, mesmo baseado na mentira compartilhada, trinta porcento começa a parecer muito dinheiro para a divisão.

    Nesse momento Dr. Careca começa com as ameaças. Mesmo as mentirosas. “Se desistir e fizer um acordo com seu patrão, o juiz irá te cobrar quarenta e cinco mil reais do processo.”  

    Dona Evelina se assusta e permanece nas garras do Safadão.

    O pobre do meu amigo Tarso nem pode se defender sem a presença de um advogado. Acabou optando por um que conhecia o esquema trabalhista, por já ter processado dezenas de incautos empregadores domésticos. Outro abutre com asas abertas.

    Tanto conhecia o esquema que tentou ver se colava uns cinco por cento do que conseguisse reduzir do processo de um milhão.

    Entretanto, meu amigo Tarso é um homem culto e com boa formação financeira, foi alto executivo, caiu na arapuca sim, mas começou a se informar sobre o assunto, afinal a santíssima Inteligência Artificial sabe coisas de todo tipo. Conseguiu perceber e sustar a tentativa de golpe do seu defensor ilibado. Concordam com os cinco por cento, mas não a partir de um milhão. O ponto de partida foi um valor que fizesse algum sentido econômico, mesmo com as mentiras inventadas pela ‘coitadinha’ amiga da família, Dona Evelina.

    Fez uns cálculos e definiu parâmetros em casos de o juiz acreditar mais ou menos em cada mentira inventada. O ponto de partida da tal redução de sentença ficou em cerca de pouco acima dos duzentos mil reais.

    E o juiz trabalhista?

    Aí não há o que a AI, desculpem o jogo de palavras, possa fazer!

     Juiz tem o tal do livre arbítrio e vive nesse esquema de distribuição social.

    Sabe qual é costume e quais as jogadas de cada lado. Principalmente sabe que os abutres querem um pouco de ‘carniça’. Sabe, perfeitamente, que os empregadores domésticos não conhecem e não se previnem dessas armadilhas. Tem suas crenças e ideologias. A balança da justiça não vem com partos iguais. Ao longo da convivência entre o empregador e a empregada cria elementos de confiança e jogo de sutilezas.

    Quando se está contente com o desempenho, em função da necessidade, há o jogo de pedir e deixar, exigir e não ofender. Quase nunca se acha necessário exigir a assinatura da folha de ponto. E mesmo se houver tal folha, dependendo do que acreditar o juiz, mesmo que o funcionário ou funcionária assine a tal cuja, ela poderá alegar que teria sido induzida a fazê-lo ou não receberia o salário. O Juíz decidirá o que lhe vier à cachola e pronto.

    A escrita da lei é o que é e o jeito de lidar com esse jogo é o que eles fazem faz tempo.

    A lógica, o salário real de mercado nada disso conta.

    Óbvio que tudo pode ir sendo levado com a barriga por anos e ver quem se cansa primeiro ou que o custo do sossego vale mais que umas caixas de um bom vinho.

    No final das contas, o que vale é o cheque no fim do caso, para um lado e para o outro. Dane-se o senhor Tarso. Afinal, se ele não registrou as horas extras no e-social, não importa quem teve a ideia, deve ser penalizado de forma exemplar.

    Dona Evelina mentiu descaradamente, o Dr. Orleans e Bragança todos sabem há quanto tempo comete safadezas, seu caríssimo representante ajuda a que o processo seja expedito e chegue o dia do seu cheque, assim todos, todos menos o meu amigo Tarso, se locupletaram com a fatalidade, desconhecimento ou imprudência.

    Sim, meu amigo Tarso Evangelista é um dos homens mais íntegros que eu conheço, mas esse mundo da tal justiça trabalhista não premia a integridade. Nem ao menos se preocupa com ela. Nesse mundo ganham a mentirosa, o safado do sindicato e o advogado oportunista que defendeu ao meu querido amigo.

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  • Knight on horse wielding lance against inflation surrounded by economic terms
    A knight representing price stability confronts inflation amid economic

    O atual presidente é um pouco parecido com Don Quixote. Não pelo lado romântico e singelo do herói de Cervantes, mas pelas lutas contra moinhos de vento. É quase cômica, não fosse tão perigosa, sua desavença contra as forças da economia.

    Macroeconomia – entre as supostas ciências exatas – é menos exata do que se imagina.

    Macroeconomia é comportamento coletivo. Dos empresários, dos investidores, do povo em geral. Como na medicina, decorre do experimento e resultados. Existem fatores matemáticos, modelos, gráficos e um monte de análises de todo tipo.

    Um dos meus professores na FGV explicava esses fatores da seguinte forma. Dizia que se um líder de credibilidade declarasse que iria faltar papel higiênico, faltaria. A razão é muito simples. As pessoas ao acreditarem que faltaria esse produto importante no asseio pessoal sairiam em manada aos supermercados e farmácias para estocar o produto. Essa compra exagerada e inesperada esgotaria todos os estoques e muitos ficariam sem o “precioso” produto.

    O sistema bancário já não depende de papel moeda como antes, mas se um banco começar a parecer insolvente, ele certamente quebrará. Não há liquidez que resista à incerteza ou desconfiança.

    Contas nacionais e seus indicadores não escapam desse processo.

    Juros não decorrem da decisão de um bando de banqueiros reunidos numa sala da Faria Lima.

    Juros – assim como preços de ativos ou comodidades – decorrem de fatores estruturais e expectativas. O coletivo espera algo, então as consequências resultam a partir disso. Por mais que se mude o presidente do Banco Central, por mais que se promovam colegiados forçados no COMPOM, a expectativa da dívida será inevitável.

    Se todos esperam, inclusive o próprio Lula, que o governo continue gerenciando o país com déficits primários ou na conta final com juros, os resultados no “mercado” serão os mesmos.

    Discursos de palanque e piripaques não afetam o mercado. Algum governo, de qualquer tendência ideológica – que crie a expectativa de um gerenciamento correto e responsável das contas públicas – esse governo irá mudar o mercado.

    Se em nossas casas, não importa se mais ricos ou mais pobres, gastemos mais do que recebemos, a consequência será aumento da pobreza.

    Se o governo insistir em distribuir uma riqueza que não vem sendo criada, a mágica (de que um crescimento virá a seguir pela ativação econômica) será frustrada. Esse sofisma ideológico de que ao distribuir recursos sem aumento da produtividade e do trabalho será, como vem sendo faz décadas, um terrível e mortal fracasso.

    Como na medicina, chá de camomila é gostoso, mas não cura câncer nas tripas.

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  • Woman holding a compass on one side and a drawing of hearts on the other, split between office and colorful artistic background

    No poema, pode haver razão,

    Mas sua essência, sua alma,

    Aquilo que o vai definir,

    É vontade ou desprezo,

    Dor, loucura ou tristeza,

    Saudade, luxúria ou desejo…

    Existência a se exaurir.

    Poema é forma.

    Mas só forma não irá decidir

    Se o poema será um poema.

    Poema se define a quem serve.

    Aquele que dele se serve,

    Ri, ama, sofre, chora, despreza,

    Afaga, tritura, engole, seduz.

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  • Para alguns os anos chegam,

    Para outros, eles se vão.

    Feliz na vida ou na esperança,

    Tristeza extinta ou a temer,

    Um  tempo em tempo que o tempo cobre,

    Um tempo escasso, sempre a correr.

    São anos gastos em vãs memórias…

    Que desvanecem no então não ser.

  • Não se trata, apenas, de Jeová, o Deus de Abrão. Quase todos os deuses de quase todas as religiões são chauvinistas. Jeová, Alah, Zeus, Odin eram deuses para além de machões. Xiva, se você pensa que era mulher se engana. Xiva era hermafrodita, pois trazia os “adereços” de ambos os sexos.

    Como estamos aqui no ocidente do mundo, vamos nos ater ao Deus dos judeus e cristãos. Analisemos o Torah (ou o velho testamento) e os evangelhos.

    A primeira parte é simples.  Provar ser Deus o primeiro. Creio haver pouco a discutir, pelo menos por partes dos que acreditam. Todos os crentes “sabem” que Deus criou tudo, portanto precede a qualquer humano. Então Deus, seja misógino ou o que seja, seria primordial. Os ateus, esses ateus, como não admitem a existência de Deus em sua fé, diriam que foi o homem (ou a mulher) quem criou Deus. Acho que posso afirmar que a maioria das mulheres não criaria um misógino. Mais provável, teria sido um homem. Então já teria sido criado misógino, óbvio.

    A segunda parte deve ser mais elaborada. Seria Deus misógino ou não? Para tanto, analisemos o Torah (ou o velho testamento) e os evangelhos.

    Comecemos pelo começo. Genesis, aqui vamos nós:

    ¹ No princípio criou Deus os céus e a terra.

    ² E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.

    ³ E disse Deus: Haja luz; e houve luz.

    ⁴ E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.

    ⁵ E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

    Gênesis 1:1-5

    Notem que Deus (Jeová) vai criando tudo em seis dias, para descansar no sétimo. Saltemos para o quinto dia, pouco antes de criar o homem:

    ²⁰ E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.

    ²¹ E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

    ²² E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra.

    ²³ E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

    Gênesis 1:20-23

    No quinto dia, Deus cria os seres que vivem nos mares e dos ares e tudo muito achou bom. Interessante esse juízo de valores sobre a própria obra. É possível que Deus também tenha sido o primeiro egocêntrico, mas deixemos isso para outra crônica.

    Vamos imediatamente ao sexto dia e vejam o que acontece:

    ²⁴ E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi.

    ²⁵ E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

    ²⁶ E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

    ²⁷ E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

    ²⁸ E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

    ²⁹ E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.

    ³⁰ E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.

    ³¹ E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

    Gênesis 1:24-31

    Assim foi o sexto dia da criação, toda alma vivente da que viveria na terra teria sido criada aos pares, inclusive o homem e a mulher.

    Porém a coisa não terminou aí, como veremos. Se o segundo capítulo não é tão claro quanto a tradição judaica-mesopotâmica (conhecimento histórico não descrito no Torah), pois Deus explica que fez o homem do pó da terra como deve ter sido com todos os casais de animais, viu Deus que Adão se encontrava só. Estranho estar ele só se os fez homem e mulher… Mas a palavra de Deus nos dá uma pista. Vejamos:

    ¹⁵ E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.

    ¹⁶ E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,

    ¹7Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

    ¹⁸ E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.

    Gênesis 2:15-18

    Genesis 2 explica que Adão, ao contrário dos outros animais da terra estava só. Mas o que Deus explica em seguida nos indica o que não está textualmente descrito. Da costela de Adão Deus produz não uma mulher, mas uma ajudadora. Além disso, não apenas uma ajudadora, mas uma ajudadora idônea. Idônea! Ora por que Deus iria fazer agora uma ajudadora e idônea? É bem provável que por que, no casal feito a princípio, a fêmea criada não teria sido idônea? Será? Primeiro erro de Deus? Já em Gênesis parece que Deus, às vezes, se arrepende. A existência de Lilith passa a ser quase inexistente no Velho testamento e inexiste nos evangelhos. Entretanto, a Isaias, ao mesmo Isaias que antecipa a vinda do Messias, lhe escapa uma menção bem desonrosa, com deveria mesmo ter passado a ser essa figura desobediente.

    14 E as feras do deserto se encontrarão com hienas; e o sátiro clamará ao seu companheiro; e Lilith pousará ali, e achará lugar de repouso para si.

    Gênesis 1:24-31

    Outras versões tentam substituir a figura de Lilith por outras palavras, por medo dessa lembrança. Afinal, como Deus não deveria gostar de mostrar seus erros e arrependimentos, assim pretenderam esses tradutores não tão idôneos.

    Mas nós não somos obrigados a enfiar a cabeça no velho testamento. Há outras referências a serem observadas. Lilith existe em vários textos mitológicos ou religiosos, como o Talmude Mesopotâmico e o Alfabeto Ben Sira. Consideremos um texto trazido dessa obra escrita por Jesus Ben Sira, por volta de 130AC:

    “Logo depois, o jovem filho do rei adoeceu, disse Nabucodonosor a Ben Sira: ‘Cure o meu filho. Se não o fizer, eu vou te matar.’

    Ben Sira imediatamente se sentou e escreveu um amuleto com o Santo Nome, e ele inscreveu nele os anjos encarregados da medicina por seus
    nomes, formas e imagens, e por suas asas, mãos e pés.

    Nabucodonosor olhou para o amuleto e perguntou a Ben Sira: “Quem são estes?”

    Ben Sira respondeu: ‘Estes são os anjos que estão encarregados da medicina: Snvi, Snsvi e Smnglof.

    Depois que Deus criou Adão, que estava sozinho, Ele disse:  Não é bom para o homem ficar só’

    Ele então criou uma mulher para Adão, da terra, como Ele próprio criou Adão, e a chamou de Lilith. No entanto, Adão e Lilith começaram a discutir:

    Ela disse: ‘Não vou deitar embaixo’, e ele disse: ‘Não vou deitar embaixo de você, mas apenas em cima. Pois você só serve para ficar na posição inferior, enquanto eu estou na posição superior. ‘Lilith respondeu: ‘Somos iguais um ao outro, visto que ambos fomos criados da terra.’

    Mas eles não quiseram ouvir um ao outro.

    Quando Lilith viu isso, ela pronunciou o Nome Inefável e voou pelos ares.

    Adão orou diante de seu Criador: ‘Soberano do universo!’ ele disse, ‘a mulher que você me deu fugiu.’

    Imediatamente, o Santo, bendito seja Ele, enviou esses três anjos, Snvi, Snsvi e Smnglof, para trazê-la de volta.

    Disse o Santo a Adão: ‘Se ela concordar em voltar, ótimo. Do contrário, ela deve permitir que cem de seus filhos morram todos os dias.’

    Os anjos deixaram Deus e perseguiram Lilith, a quem alcançaram no meio do mar, nas poderosas águas em que os egípcios estavam destinados a se afogar.

    Disseram-lhe a palavra de Deus, mas ela não quis voltar. Os anjos disseram: ‘Nós afogaremos você no mar.’

    ‘Deixai-me!’ ela disse. ‘Eu fui criada apenas para causar doenças aos bebês. Se o bebê for do sexo masculino, eu tenho domínio sobre ele
    por oito dias após seu nascimento, e se feminino, por vinte dias.’

    Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram para que ela voltasse. Mas ela jurou-lhes pelo nome do Deus vivo e eterno: ‘Sempre que eu ver você ou seus nomes ou suas formas em um amuleto, não terei poder sobre aquela criança.’

    Lilith também concordou que cem de seus filhos morressem todos os dias.

    Assim, todos os dias cem demônios morrem e, pelo mesmo motivo,
    escrevemos os nomes dos anjos nos amuletos das crianças.

    Quando Lilith vê seus nomes, ela se lembra do seu juramento, e a criança se recupera. Fim do relato de Lilith conforme consta no Alfabeto de Ben Sira.

    Referência:

    1. Stern, David and Mirsky, Mark Jay. Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Classical Hebrew Literature (Yale Judaica Series). Philadelphia, Jewish Publication Society, 1990. Pp. 183-184.

    Jesus Ben-Sira foi um dos grandes escribas eclesiásticos. Foi um dos mais importantes escritores da literatura bíblica judaica. Hoje em dia, quase toda a referência a Lilith desapareceu das práticas oficiais judaicas e cristãs. Só porque queria fazer sexo pelo lado de cima, Lilith foi expulsa, descasada, amaldiçoada pelo Senhor. Os eruditos religiosos gastam toda sua dialética para essa limpeza étnica em favor do queridinho da Criação. Essa preferência de Deus por Adão, a ponto de recriar uma tal de “ajudadora” e ainda “idônea” é muito, muito chauvinista.

    Nem Jesus, que preferiu Maria Madalena frente aos outros apóstolos, conseguiu atenuar os problemas de seu Pai.

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  • APÊNDICE

    A função exponencial y = ex tem a intrigante e única propriedade de ser sua própria derivada, i.e.:

    d ex /dx = ex. Isso é mais uma definição que uma propriedade única. Dessa forma, pode-se definir que que só existe um único número maior que zero que satisfaça a equação ln(x)   , sendo esse x igual a “e”. Portanto  também define o número neperiano e.

     Prova de que: ex = lim n->∞[(1 + x / n) n]x

    Primeiramente vamos provar que: e= lim n->∞[(1 + 1 / n) n]

    Para isto vamos chamar h=1/n para transformar a equação acima em:

    e= lim h->0 [(1 + h) 1/h]

    Para fazer esta demonstração vamos utilizar a definição de derivada da função f(x)=ln.

    Pela definição de logaritmo, d.ln(x)/dx=1/x e para x=1 temos que:

    f’(x)=1/1=1

    Assim lim h->0 {[ln(1 + h)– ln(1)]/h} e como ln(1) = 0 (pois e0=1) simplificamos:

    1 = lim h->0 [(1/h).ln(1 + h)] e usando a propriedade dos logaritmos de que ln xr=r.ln x , pois se ln xr=B => (eB = xr ) ou que (eB/r = x) assim ln(x)=B/r ou que r.ln(x)=B= ln xr

    temos: 1 = lim h->0 [ln(1 + h)]1/h e considerando a continuidade da função logarítmica que define que se lim ln f(x) = ln lim f(x)

    temos: 1 = ln { lim h->0  [(1 + h)1/h ] }

    e como por definição ln e = 1 temos que:  ln e = ln{ lim h->0  [(1 + h)1/h ]}

    portanto:  e = lim h->0  [(1 + h)1/h ] ou ainda: e = lim n->∞[(1 + 1 / n) n]”

     lim n->∞[(1 + x / n) n]x  = lim n->∞{[1 + 1/(n/x)] n/x}x  e chamando n/x de n’:

    lim n->∞{[1 + 1/n’)n’}x  = { lim n->∞ [1 + 1/n’)n’}x  = ex portanto:

    ex = lim n->∞[(1 + x / n) n]x 

    Que também pode ser escrito como:

    ex = lim h->0[(1 + x / n)1/h]x 

    Outra demonstração da Derivada da Função Exponencial (d/dx ex= ex)

    Esta demonstração foi extraída do site:

    http://obaricentrodamente.blogspot.com.br/2009/07/demonstracao-derivada-da-funcao.html)

    Está dividida em duas partes, para melhor esclarecimento:

    a) Para iniciar esta demonstração, vamos primeiramente provar, de uma outra forma, o limite abaixo:

    Por Hipótese:

    Para a ≠ 1, fazemos uma mudança de variável:

    ax – 1 = t  

    Se x tende a zero, então t tende a zero também, pois:

    a0 – 1 = t

    1 – 1 = t

    t = 0

    Fazemos então:

    ax = 1 + t  

    Assim podemos escrever:

    Então, tomando o limite inicial:

    Aplicamos a mudança da variável x para t: Pela demonstração do limite fundamental exponencial, o limite abaixo tende a e:

    Então, aplicando o limite, obtemos:

    ln(a) / ln(e) = ln(a) /1 = ln (a)

    Como queríamos demonstrar, comprovando a afirmação inicial.

    b) Utilizando o conceito de derivada , temos:

    Para uma função exponencial do tipo:

    Fazemos as devidas substituições:

    Provamos em a) que o limite:

    Aplicando o limite acima, podemos reescrever ( I ) como:

    Portanto, podemos dizer que, se:

    Mas, se a = e, temos:

    Outra demonstração do Limite Fundamental Exponencial

    Esta demonstração também  foi extraída do site:

    http://obaricentrodamente.blogspot.com.br/2009/07/demonstracao-derivada-da-funcao.html)

    O número e tem grande importância em diversos ramos das ciências, pois está presente em vários fenômenos naturais como por exemplo: crescimento populacional, crescimento de população de bactérias, datação do carbono, circuitos elétricos, entre outros.

    Foi John Napier (1550-1617), matemático escocês, o responsável pelo desenvolvimento da teoria logarítmica utilizando o número e como base. O número e é irracional e vale aproximadamente:

    e = 2,7182818…

    Devido à sua vasta aplicação, a função exponencial f (x) = ex é considerada uma das funções mais importantes da matemática.

    Seja o limite exponencial:

    Vamos fazer uma mudança de variável, onde:

    Logo, substituindo (2) em (1), obtemos:

    Vejam que u→+∞ quando Δx→0+ e que u→−∞ quando Δx→0−. Assim, as equações podem ser escritas como:

    Ou simplesmente:

    Consideremos o fato que um número:

    Sendo válido para todos os valores reais de k e sendo b > 0. (Veja seção de Funções Exponenciais e Logarítmicas com Bases Diferentes de e, Munem – Foulis, pág 445).

    Assim:

    A prova se dará quando:

    Pois, então:

    virá como continuidade da função exponencial.

    Podemos provar o limite dado em (7). Para isso, façamos:

    Assim:

    Utilizando-se do teorema dado em (1), podemos estabelecer:

    Quando a>0, façamos u=h/a, observando que u→+∞ quando h→+∞. Portanto:

    Façamos, então:

    Para a verificação, podemos usar noções de série e utilizaremos uma tabela de aproximações:

    Então, se:

    1/x = u => x = 1/u

    Se x→∞, então t→0, logo:

    Referências:

    [1] Cálculo com Geometria Analítica – Munem – Foulis

    BIBLIOGRAFIA

    Principles of Corporate Finance Richard A. Breadey and Steward C. Myers
    Financial Market and Corporate Finance Mark Griblatt and Sheridan Titman
    Fundamentals of Financial Management Eugene F. Brigham
    Economics Paul A. Samuelson
    Managerial Finance J. Fred Weston and Eugene F. Brigham
    The Capital Budgeting Decision – Economic Analysis of Investment Projects Harold Biermam Jr and Seymor Smidt
    Valuation – Measuring Manging the Value of Companies Tom Coperland, Tim Koller and Jack Murrin
    Analysis for Financial Management Robert C. Higgins
    Macroeconomics N. Gregory Mankiw
    Calculus and Analytic Geometry Abe Mizrahi and Michael Sullivan
    Cálculo com Geometria Analítica Munem – Foulis
    Business Analysis and Valuation – Using Financial Statements Krisna G. Papelu, Paul M. Healy and Victor L. Bernard