WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

A PEQUENA VENDEDORA DE TOALHINHAS BORDADAS

Menina negra com vestido azul e cestinha de vime

No penúltimo domingo de outubro, saí com a família para almoçar num restaurante oriental que não conhecíamos ainda.

O restaurante escolhido fica na Rua Bela Cintra. No caminho, ficamos um pouco apreensivos, pois ocorriam manifestações políticas na Avenida Paulista, que deixamos de considerar.

A decisão foi de última hora e não houve problemas em conseguir as três reservas para minha família.

Chegamos sem contratempos apesar da confusão na área e o almoço foi agradável. Boa comida, mais cara do que costumamos gastar nesses dias de almoçar fora de casa, mas compensada pela atenção dos funcionários e pela comida farta e esmerada.

Havia casais e filhos pequenos com as tradicionais camisetas da seleção brasileira usadas pelos manifestantes mais conservadores, outras famílias vestidas informalmente como nós, casais de namorados, turma de amigos. A frequência era boa, mas o restaurante estava bem aquém da lotação, mesmo em tradicional horário de pico.

Resolvi escrever essa crônica, não pelo restaurante, a comida ou a atenção dos funcionários, mas pelo que ocorreu logo depois enquanto esperávamos o carro junto ao abrigo de sol dos manobristas.

Uma menina pequena de aproximadamente seis a sete anos, aproximou-se de minha filha e ofereceu-lhe um pano de cozinha bordado.

A menina era negra e vinha esmeradamente vestida, com um vestidinho estampado, os cabelos bem arrumados, rabo de cavalo alto.

As três toalhinhas vinham caprichosamente dobradas de forma alongada e cuidadosamente organizadas em uma linda cestinha de vime.

Na minha cabeça, passaram todos os sentimentos típicos de uma ocasião como esta.

O sentimento de pena pela criança, talvez sendo usada por seus guardiões, a dificuldade de vida de algumas pessoas, a revolta pela forma deficiente e injusta da educação no país e outros sentimentos que se contrapunham ao ver a menina com seu rostinho simpático e tranquilo, o cuidado com que vinha vestida, o esmero na forma como se preparara para oferecer seu produto.

Pensei que poderia estar sendo explorada, que o lugar de criança seria brincando e coisas do gênero.

Depois, escolhi pensar no que poderia ser bom no que ocorria, principalmente pelo que aconteceu em seguida.

Minha filha inicialmente se desculpou por não poder aceitar a oferta da menina por não carregar dinheiro em cédulas compatíveis com o preço pela toalhinha acomodada na cestinha de vime. Depois, comovida pela graça e olhar da menina, perguntou se acaso ela tinha um PIX para o pagamento.

Diante da resposta positiva da menininha, “Tenho sim”, preparava o celular quando intervi lembrando que eu, extraordinariamente, tinha uma nota de vinte reais na carteira.

A menina pegou a nota, guardou-a num bolsinho e ofereceu a cestinha à minha filha:

-Pode escolher!

Minha filha pegou uma das toalhas quando minha esposa interveio, perguntando se a menina aceitaria a toalha de volta, como um presente para vendê-la novamente.

Ante o olhar desapontado da menina, tentei insistir, mas percebi nosso erro.

A menina se considerava uma vendedora. Aliás, uma excelente vendedora. O que oferecia eram esses paninhos para secar louça, bordados com delicadeza. Ela se preparara para vender o produto. Vinha com seu lindo vestidinho, bem passado e estava lindinha, com seu cabelo preso e arrumado.

As toalhinhas estavam bem dobradas e perfeitamente organizadas na sua cestinha de vime.

Ela estava lá, caminhando de um Vallet a outro, oferecendo seu produto com todo seu ‘marketing’ cuidado. Vendia tudo isso. Vendia sua simpatia, a distribuição, a apresentação do produto. Vendia como boa vendedora que é.

Ela esperava o pagamento pelo seu produto e que seu produto encontrasse o comprador satisfeito com tudo, talvez até com os próprios sentimentos.

Ela não pedia ajuda ou esmola. Ela estava lá, produzindo sua contribuição ao produto interno bruto do seu país.

Ela não buscava bolsa família para sua condição. Ela estava resolvendo sua situação com muito esmero e dedicação e estava fazendo isso muito bem.

A toalhinha veio conosco e nos será uma lembrança querida desse encontro.

Pensei que a experiência vivida podia ser o símbolo daquilo em que acredito e que precisa ser valorizado. O trabalho com dignidade e a possibilidade de prover para as próprias necessidades.

Pode ser uma visão ingênua essa que escolhi. Mas quero ficar com ela.

Em um chocante contraste, nos deparamos a seguir com um pequeno grupo de motoqueiros com a camiseta brasileira, acelerando desnecessariamente e de forma extremamente agressiva suas motos ultra potentes. Pareciam marginais ricos e ignorantes. Um era mais velho e carregava mini tonéis de cerveja na garupa. Tinham bandeiras brasileiras, mas, na sua estupidez, apenas contribuíam para o que pensam os esquerdistas mais extremos.

Almas pobres e indignas que deveriam se espelhar e se envergonhar perante o que nos mostrou a pequena vendedora de toalhinhas bordadas.

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