
Eu estava iniciando minha carreira como gerente de pessoas tardiamente, com a mesma idade em que Cristo se aposentou, sem me dar conta que eu era um “baby boomer”.
Havia sido contratado pelo primeiro doutor em psicologia do trabalho do Brasil para estagiar no departamento de Relações Industriais (hoje seria Recursos Humanos). Claro, naquela época deixava-se de lado a hipocrisia e se atuava naquilo que era o objetivo principal da tal função. Óbvio, atrair a melhor força de trabalho e mantê-la ao menor custo, fatores importantes para garantir competitividade em qualquer tempo. Evitar atritos entre os concorrentes, enquanto corria a luta franca, não parecia ilícito. Era o que se fazia.
Fui contratado no mesmo dia em que iniciei meu curso de Engenharia Industrial na universidade da Rua Itambé, 45. Era por lá que se chegava ao prédio da Faculdade de exatas, na época.
Na segunda metade da década de oitenta eu já estava na fase da minha profissão na qual me estabeleci – finanças – e era responsável pelo grupo de Planejamento Estratégico e Análise de Negócios da multinacional na região Brasil.
Lembro-me bem que a então diretora de Recursos Humanos fazia uma apresentação aos gerentes e diretores sobre as mudanças gerenciais necessárias para acolher a geração X. Uma abordagem óbvia para os objetivos da função dela e da gerência em geral.
Lembro-me que não reagi de forma tão compreensiva como agora.
Pensava no que se passava realmente nas cabeças desse pessoal que chega à idade de passar da fase de só aprender para a de ter que produzir e conseguir recursos para sua própria manutenção. Imaginava se a mudança nas circunstâncias havia, de fato, mudado a essência desses jovens. Não acreditava nisso, achava que o essencial, o que faz as pessoas se moverem, não tinham mudado na verdade.
Não me parecia que as mudanças, embora significativas, pudessem mudar – de fato – a essência humana daqueles jovens.
Os jovens da minha idade saíram de um mundo quase não tecnológico para um mundo absolutamente tecnológico, quase que em um flash de luz. Na minha infância não havia televisores nas residências, não havia calculadoras nas escolas, nossos pais não tinham carro, os recursos e informações eram escassos e estavam longe de nós… em enciclopédias e livros das bibliotecas.
Tive aulas de cálculo numérico para exercitar a habilidade de arredondar e estimar valores de forma ágil. Aprendi a usar régua de cálculo para a Engenharia. Régua de cálculo! Algo tão inútil hoje quanto pombo correio.
Nos primeiros poucos anos eu já estava com computador pessoal na minha mesa e tendo que ser hábil ao usar planilhas. Pior, esse avanço foi em muitas etapas e tudo mudava e obsolescia em meses, não anos. Xerox, telex, cartão perfurado, cassete, CD e assim foi.
Os profissionais que nos precederam passaram por uma experiência na qual o aprendizado escolar teve uso quase pleno. Os baby-boomers tiveram que viver a novidade. Pior ainda, viver novidade e novidade, dezenas de viradas de mesa. As ferramentas se renovavam, a linguagem de trabalho e das ferramentas de trabalho mudavam, as salas de trabalho mudavam, todas as relações de trabalho mudavam… Algumas motivadas pelas necessidades aparentes de X, Y e Z de fato (afinal, quem foi o incauto que resolveu começar em X?).
Isso teria mudado o que movia minhas necessidades, medos e desejos de forma essencial?
Eu sempre acreditei que, se nossas angústias eram diferentes, eram diferentes apenas porque as causas eram diferentes. Acreditava que os medos e desejos eram, na sua essência, mesmo antes de que os primeiros psicanalistas pensaram no assunto. Era nisso que acreditava.
A situação era diferente, mas a essência das angústias, o âmago do que toca nossa alma, isso não era novidade.
Não havia ouvido em pulsões de morte e pulsões de vida, Eros e Tânatos, vida e morte, medo e prazer fluindo sobre o manto das circunstâncias. Entretanto, imaginava que desde que o homem pode se dar conta da sua consciência, da sua existência, aquilo que lhe motiva ou lhe reprime são fatores bem básicos e fundamentais. Teria havido tanta mudança que isso deixasse de ser verdade?
Penso que almas pouco mudam. Almas como expressão de consciências. O que mudam, acreditava, eram os cenários onde a atuação existe. Não seria assim?
Ser jovem e envelhecer. Desejar e temer.
Esse movimento do desejo de vida e do medo da morte transformam o desejo até que este esvaneça, até que só reste o medo… ou até que nem este consiga existir.
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