WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

  • Do outro lado a janela (Poema original)

    Existe um olhar

    Do outro lado da janela

    Existem sonhos

    Do outro lado da janela

    Alguém espera

    Do outro lado da janela

    O tempo passa

    Do outro lado da janela

    Alguém soluça

    Do outro lado da janela

    Uma vela acende

    Do outro lado da janela

    Uma prece é dita

    Do outro lado da janela

    Um terço corre

    Do outro lado da janela

    A luz se apaga

    Do outro lado da janela

    A voz se cala

    Do outro lado da janela

    Não há mais nada Do outro lado da janela

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  • Tia Antonieta, santa ou cozinheira? (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Éramos todos batizados, crismados e fotografados na primeira comunhão. Católicos certificados, mas não praticantes. De qualquer forma esses anjos, santos, boas e más almas eram todos espíritos que, de vez em quando, ‘desciam’ em algum médium nas sessões espíritas que ocorriam na casa da minha avó.

    A visita da tia Antonieta ocasionava sempre uma dessas reuniões religiosas. Tia Antonieta era de fato minha tia-avó por parte de mãe. Essa irmã de minha avó morava em Valinhos e tinha fama de poderosa benzedeira na região. O próprio vigário da igreja, vez ou outra, a procurava para alguma ajuda contra indisposição, dor de cabeça e outros males físicos ou do espírito. Hoje sou agnóstico, mas naquele tempo não era. Queria ser meio milagreiro como a tia Antonieta, já que santo eu não era.

    Tia Antonieta fora abandonada pelo marido e, sozinha, criou suas filhas. Entre as histórias que me contavam uma delas era que algumas vezes a família pobre dessa senhora percebia que não havia comida para a próxima refeição. Confiante, tia Antonieta dizia a suas filhas que não se preocupassem. Ajoelhava-se, pedia com fervor e dali a pouco chegava alguém para benzer contra quebranto ou mal olhado, trazendo alguma comida como agradecimento.

    Pessoalmente nunca conferi nenhum milagre, caso contrário talvez até tivesse chegado a outras conclusões existenciais. Mas as histórias lhe davam fama. Para mim sua conversa, ou melhor, a conversa do seu guia  Bezerra de Menezes era sempre a mesma: elogios a todos, alguma admoestação à minha avó pedindo  paciência com o sofrimento que uma doença crônica lhe impunha, para em seguida lhe dar esperança de alguma melhora que nunca ocorria. De certa forma, Bezerra de Meneses, ícone do espiritismo no Brasil, passara a ter a mesma onipresença atribuída ao próprio criador, dada a quantidade de médiuns que o recebiam como guia.

    O tempo e algum conhecimento de ciência e uso da lógica passaram paulatinamente a substituir minha fé. Como conciliar a fé sem prova com a prova da fé? Teria Deus criado o homem à sua imagem e semelhança ou teria sido o contrário. A Sua busca e não a falta desta levou-me a conversar com Deus assim:

    Talvez nem te ocupes de existir…

    Me abandonas desesperançado,

    Procurando e procurando…

    Até que eu mesmo me junte a ti.

    Quanto à tia Antonieta, concluí que era uma verdadeira santa. Num final de semana fomos todos visitá-la em Valinhos. Fomos minha avó, minha mãe, uma das minhas tias, minha irmã e eu. Chegamos na hora do almoço e eu estava morto de fome. Tia Antonieta havia preparado um gigantesco risoto à moda caipira. Era muito bem temperado e com um delicioso molho de tomates. Era algo que ficava entre um risoto e um arroz de forno, com queijo ralado, só que feito em duas enormes panelas de alumínio.

    Devorei contados cinco pratos bem servidos até satisfazer-me. Comia e elogiava, como que para me desculpar de tanta gulodice.

    Se a velha senhora de Valinhos teria sido uma santa benzedeira eu nunca pude realmente comprovar. Mas que tia Antonieta era uma santa cozinheira, disto não tenho a menor dúvida!

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  • Peruíbe (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Em algumas das férias escolares éramos convidados para passar uns dias numa casa de veraneio, em Peruíbe. Saídas como esta eram coisas raras em nossa infância. Logicamente ficávamos ansiosos e, nessas ocasiões, o tempo parecia não passar mais. Mas finalmente chegava o dia da viagem.

    Na época, não havia rodovia até Peruíbe. Quem quisesse chegar lá de carro tinha que se aventurar em rodar pela areia, pelo menos a partir de Itanhaém. Areia esta sobre a qual, conta a história, José de Anchieta teria composto seu Poema à Virgem, usando um graveto, durante sua permanência de própria vontade como refém dos índios, durante a histórica Confederação dos Tamoios. Este percurso somente era seguro com a maré baixa. Havia sempre o perigo de atolamento nos vários riachos que desembocavam mansamente na longa praia. Mas para nossa família a decisão era simples: Como não tínhamos carro, nossa única opção era o trem.

    Levantávamos muito cedo. As malas já estavam arrumadas de véspera. Café reforçado, descíamos a Pedro Cubas em direção à avenida Manoel de Carvalho, onde passavam os ônibus que vinham da Vila Pereira Barreto e Vila Bonilha. Seguíamos às estações de trem na Lapa de Baixo.

    Atravessávamos as porteiras de duas ferrovias que seguiam paralelas na região, para ter acesso à estação da Lapa da ferrovia Sorocabana. Lá, por volta das 7 horas, apanhávamos o trem longo de vagões de madeira com suas janelas amplas e  baixas.

    Eu e minha irmã corríamos para algum lugar vago em alguma janela. Os bancos eram colocados como numa sala, um de frente ao outro, de forma que metade dos passageiros viajava de costas, com a paisagem fluindo como a de um vídeo em retrocesso.

    O som e balanço do trem eram ritmados e seguíamos naquele rebolar arredondado, fazendo muitas paradas, algumas bem demoradas. Como a ferrovia era singela, de um único trilho, algumas paradas ocorriam com o trem em um desvio, esperando a passagem de outro que vinha no sentido contrário. Alguns desses eram longos trens de carga que passavam bem lentamente, como se as locomotivas mal tivessem força de deslocá-los.

    O tempo de viagem era longo e muito variado. Nunca levava menos de cinco horas, mas podia chegar a seis ou até sete horas. Assim, minha mãe sempre preparava um caldeirão com bifes de alcatra à milanesa, mergulhados num delicioso molho de tomate e cebola, cheirando a orégano. Comíamos essa delícia em sanduiches de pães frescos, comprados pela manhã. Não era o pãozinho francês de hoje em dia, mas generosos pedaços do filão de pão.

    O trem até possuía um vagão refeitório, mas no máximo tínhamos direito de sentar lá para tomar uma caçulinha, uma cerejinha, ou ainda melhor, uma Tubaína de 750 ml.

    A viagem era muito bonita. Passado o percurso pela margem direita do rio Pinheiros, o trem o atravessava na altura da ponte do Socorro. Dali a pouco  iniciava a travessia da região da Guarapiranga, para enfim, alcançar o longo, mas suave percurso de serra. Centenas de manacás com suas flores variadas entre o rosa e o lilás desfilavam pela janela. No inverno, havia ipês completamente amarelos. Passávamos por inúmeras cachoeiras. No meio do nada surgia uma pequena casinha solitária. Tia Rosa, dona da casa de Peruíbe, sempre dizia. “Imaginem quanta história, quanta emoção existem ali naquela casinha!”

    O trem continuava e, para gastar o tempo, passávamos de vagão a vagão até o final do trem e voltávamos. Às vezes, sentávamos nas escadas entre os vagões. Lá podíamos sentir o vento no rosto enquanto nos deslocávamos pela paisagem da mata Atlântica vendo os trilhos correndo sob o trem.

    Terminada a descida começavam as estações da praia grande, mas faltava ainda um bom trecho até o final da viagem. Nós sabíamos de cor a sequência de todas as paradas. Muitos dos nomes já eram sugestivos das delícias que viriam no litoral. Balneário Tal e Coisa, Solemar e assim seguiam as paradas.

    Quando chegávamos a Itanhaém,  sabíamos que faltavam poucas estações até nosso destino. Peruíbe era a última das estações da Praia Grande. Dalí o trem entrava na parte das fazendas de banana e  dos palmitais do litoral sul.

    Parado o trem em Peruíbe, era um alvoroço para que não esquecêssemos  nenhuma bagagem. Meu pai contava as malas e sacolas amontoadas na estação. Pouca gente descia em Peruíbe. Infalivelmente estava lá o Seu Pedro com sua charrete puxada por um cavalo branco já velho como ele. Seu Pedro era um caiçara magro e tostado do sol. Com custo nos ajudava a ajeitar as mala. Alguns de nós seguiam na charrete e os demais caminhavam ao lado dela. O percurso da estação até o Rancho Rosa-Mar levava uns vinte minutos, tanto a pé quanto no passo lento do velho cavalo.

    A casa tinha um piso contínuo de cimento queimado com vermelhão. Ficava por meses sem morador ou cuidado. Assim, antes de colocarmos as coisas para dentro, minhas mãe e tia passavam um pano úmido pelo chão e rapidamente davam uma limpada na casa. Sem poluição havia pouca sujeira e num instante a casa estava cheirosa e receptiva.

    Havia um pequeno terraço na entrada. Nela o irmão do meu tio pintou uma das parede, fazendo-a  parecer uma janela que abria para um jardim com uma linda roseira florida. Júlio Tondim, cunhado da tia Rosa e irmão do tio Armando era o autor da obra. Seguia uma copa e cozinha que terminava em uma porta que dava para o quintal de areia, atrás da casa. Além disto, havia dois quartos, cada um com uma cama de casal e duas de solteiro, algumas com colchões de palha. Na frente um quintal grande, com um enorme pé de caju, frequentemente carregado. No terreno vizinho subiam dois enormes abacateiros sob os quais ficava um pequeno casebre de pau-a-pique, coberto de sapé. Era a choça do Mingo, descendente dos índios da região, que vivia lá sozinho.

    A rua era de areia, com um pouco de grama nativa marcada pelas rodas de carros que passavam eventualmente. As casas existiam de um lado só. Do outro lado da rua havia um córrego com guarus e girinos. À noite se ouvia o coaxar das rãs que podiam ser vistas com o lampião de carbureto, assim como lagostins e cobras d’água. Depois do almoço, eu gostava de atravessar o córrego e passear num bosque de enormes pés de jambolão, com suas frutas roxas e digestivas. O bosque abrigava de um dos lados uma antiga igreja adventista.

    Peruíbe era minúscula na época. Luz elétrica acabara de chegar. Na primeira vez que fomos para lá, enquanto o Rancho Rosa-Mar era projeto, nos hospedamos na casa vizinha, o Rancho Alegre. Era uma casa de madeira bem antiga, uma das primeiras da região. Lá tínhamos de usar lampiões durante a noite e esquentar água no fogão para os banhos.

    Praia ficava para o dia seguinte. Íamos bem cedo, a tempo de acompanhar a retirada da rede de arrasto, coisa dos caiçaras da região, inclusive o Mingo. Era divertido ajudar a puxar a rede com as duas longas cordas que a traziam de longe e acompanhar a retirada dos peixes. Lembro-me de levar uma dolorida ferroada de mandi que deixou minha mão inchada por vários dias.

    Além da praia, havia o passeio ao Rio Preto. Lá podíamos pegar siri com armadilhas lançadas do alto da ponte. Pescar robalinhos e ximburés também era programa nas margens do rio.

    Na praia, na entrada da noite, vez ou outra, íamos passar o picaré à cata de siris e camarões. No inverno encostavam grandes camarões pistola que pulavam da água, tentado fugir da rede. Para aguentar o frio, mesmo as crianças tinham direito a um gole de conhaque que era levado para esse tipo de pescaria. Quando tínhamos sucesso, voltávamos com o balde de alumínio pelo menos até a metade com os crustáceos que brilhavam à luz da lua. Em casa tudo era fervido num grande caldeirão, só até ficarem vermelhos. Com um pouco de limão vinagre de um pé do quintal e uma pitada de sal, a iguaria era devorada na mesma noite.

    O programa mais ou menos semelhante era repetido todos os dias. No início eram inevitáveis algumas queimaduras de sol, muita vermelhidão que com os dias virava uma cor morena que acabava por proteger nossa pele até o final das férias. Ninguém sabia de protetor solar! Se a queimadura ardia muito, usávamos creme dental ou vinagre para dar algum alívio.

    Terminadas as férias, voltávamos bronzeados, descascados, renovados e cheios de história para contar.

    Na volta o trem saía de Peruíbe depois do almoço. A viagem não era acompanhada da excitação da ida. Parecia ser monótona e a paisagem não parecia ser a mesma da ida. No final dela, o trem recolhia os pescadores da Guarapiranga e chegava, já à noitinha, na mesma estação da Lapa de Baixo.

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  • Isaias e o aquecimento global (Crônica de Deuses no divã)

    Fiquei um pouco chateado com toda discussão sob a forma da terra. O Isaias sempre me deu trabalho querendo me explicar.

    Eu moro onde não mora ninguém. Do jeito daquela sambinha. Eu não moro. Precisam entender que esse negócio de céu, subir às nuvens, inferno de fogo são todas alegorias.

    Quando o Isaias tentou explicar, ele acabou por deixar tudo meio confuso:

    “A quem vocês compararão Deus? Como poderão representá-lo?
    Com uma imagem que funde o artesão, e que o ourives cobre de ouro e lhe modela correntes de prata?
    Ou com o ídolo do pobre que pode apenas escolher um bom pedaço de madeira e procurar um marceneiro para fazer uma imagem que não caia?
    Será que vocês não sabem? Nunca ouviram falar? Não lhes contaram desde a antiguidade? Vocês não compreenderam como a terra foi fundada?
    Ele se assenta no seu trono, acima do círculo da terra, cujos habitantes são pequenos como gafanhotos. Ele estende os céus como um forro, e os arma como uma tenda para neles habitar. Isaías 40:18-22”

    Círculo da Terra? Nas traduções mais modernas ainda tentaram dar uma corrigida na tradução, mudando para “cúpula da terra”… Claro que o Isaías achava que a terra era um disco chato e foi círculo que ele quis dizer. Não há dúvida. Mas não é esse o ponto. Na verdade, não moro em tenda alguma. Não adianta olhar para cima, com telescópio ou qualquer outra coisa. Não é nesta direção que habito porque, afinal, não habito lugar algum.  

    Por outro lado, o ser humano é importante para mim. Isaias não devia ficar dizendo as coisas que ele disse. Não é com terror que se conquista a confiança de um povo. Até entendo a motivação dele, com todo nhem-nhem-nhem dos meus escolhidos. Afinal os escolhidos foram escolhidos para dar exemplo, não para ter qualquer vantagem.

    Foi neste ambiente de lamúrias e reclamações que o Isaias teve que intervir. Ao fazer isso ele me fez parecer um tirano horroroso. Até eu escolheria satanás se fosse aquele como Isaias me descreveu.

    “De uma lua nova a outra e de um sábado a outro, toda a humanidade virá e se inclinará diante de mim, diz o Senhor.
    Sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade. Isaías 66:23,24”

    Uma loucura. Já imaginaram eu espalhar defuntos eternamente apodrecendo para mostrar do que sou capaz?

    Exagerado esse Isaias!

    Claro que queimei Sodoma. Certamente tive que resetar a humanidade com Noé. Mas fiz isso para proteger a humanidade dela mesma.

    Hoje em dia, me preocupa o aquecimento global. Como sabem eu coloquei o homem como líder da criação, mesmo fora do paraíso. Este é um cargo muito importante. Como todo poder, isso vem carregado de grande responsabilidade. Ofereci ao homem o controle dos cavalos, dos camelos, dos jumentos e até dos elefantes para que pudesse se locomover e carregar as coisas de que precisava nas suas tarefas. Mas o homem não se contentou com esse domínio. Ficou inventando automóveis, aviões, trens, caminhões, navios. Todos movidos com combustível fóssil. Não é só isso. Permiti que se vestisse com a pele das criações e dominasse o fogo para seu conforto nos invernos. Não foi o bastante. Criou casas aquecidas e refrigeradas e todo tipo de conforto à custa dos recursos da terra e sofrimento das outras espécies viventes que o homem deveria liderar e proteger.

    Não vou deixar ninguém apodrecendo para provar do que sou capaz, mas acho que vou ter que dar um novo reset, para bem do próprio homem e de toda criação.  Ah! Isso vou. Não percam por esperar.

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  • Quem será minha namorada? (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Eram as meninas.

    Eram as meninas que circulavam os fuxicos dentro da classe e dentro da escola. “Marina gosta do Ronaldo!” “Taeko gosta do Luís!”  E corriam as notícias plantadas pelas melhores amigas, sem o consentimento expresso, mas creio que com a aprovação velada das citadas.

    Também inventavam inúmeras brincadeiras de gostar e desgostar, de escrever o que se pensava deste e daquele, enquanto o caderno corria de mão em mão e mensagens chegavam ocasionalmente, mas sem falta, a seus destinos.

    Todo menino ficava sabendo de suas pretendentes e das pretendentes dos outros.

    Com os meninos era diferente. Eles gostavam sim, mas seus segredos morriam calados nos ouvidos dos seus confidentes, isto quando ousavam sair dos lábios do desafortunado.

    Soube de alguns meninos que envelheceram e ainda cultuam aquela menina inatingível, hoje sexagenária. 

    Eu não era o ídolo da classe, mas era bom aluno e com o tempo e gosto pelos esportes fui ficando com um físico razoável. Assim, passei a figurar em algumas das listas do gosto e não gosto. Algumas eram meninas bonitas, mas nenhuma que realmente me deixasse entusiasmado pela preferência. Houve uma vez em que recebi um abaixo assinado das meninas de uma série mais nova, todas interessadas em mim. Foi muito lisonjeiro! 

    Numa roda de uma brincadeira da verdade, com meninos e meninas, uma delas foi questionada sobre o que achava de mim. Senti que daquela vez a resposta me interessava. Ela, além de muito bonita, era ainda uma das meninas mais inteligentes da classe. Era muito diferente das outras, pelo menos para mim. A resposta começou agradável, com algo como “acho-o muito inteligente”. Mais algum elogio discreto, até que terminou com um “entretanto, acho-o muito imaturo”.

    Claro que eu era imaturo, pois caí como um  patinho na armadilha que foi articulada desde o começo do jogo. Na minha vez de perguntar, o alvo era ela mesma, claro, e a pergunta foi o que afinal era maturidade para ela? Nem ouvi a resposta, tamanha a adrenalina que circulava nas minhas veias.

    Hoje essa menina é minha esposa. Ficamos nesse gosto não gosto por todo o curso ginasial, quinto a oitavo anos de hoje, e começamos a namorar no colegial, atual ensino médio. Nós nos casamos assim que ela concluiu o curso superior, quando eu ainda cursava o último ano de engenharia.

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  • O beijo no asfalto (Crônica de Memórias de um paulistano)

    “Quando andares sozinho, distraído,
    nas ruas da cidade, onde, por vezes
    vibram sorrisos ou se oculta um pranto: —
    Não te esqueças de mim, que te amo tanto!…”

    (trecho do poema “Balada da saudade” de Bárbara Vasconcelos de Carvalho)

    Bárbara Vasconcelos de Carvalho, Dona Bárbara, era orgulhosamente baiana, escritora, poetiza, educadora e professora singular!

    No Jácomo Stávale, Bárbara foi das mais queridas entre os professores para muitos de seus alunos. Entretanto, não podia ser unanimidade. Sua significância não permitiria tal coisa. Na verdade, foi  detestada por alguns alunos.

    Testemunhei em um site de crônicas um pouco dessa antipatia e até rancor para com a excepcional educadora. O curioso é que, mesmo nos textos desses ex-alunos que teceram palavras de ressentimento, eu pude ver a marca da professora de português.

    Por ocasião da morte de Dona Bárbara, eu encontrei uma nota de uma ex-aluna que se despediu com um “Já vai tarde!”. Na crítica amarga à professora eu pude perceber uma redação muito bem escrita, sem erros, sem vícios e com muita clareza. Era possível notar alguns dos ensinamentos e mesmo a influência da professora na escrita apresentada. Resolvi postar um comentário à ex-aluna dizendo exatamente isto. Não tive resposta.

    Claro que entendo os motivos dessa dicotomia.

    Hábil com os números e lógica, embora capaz de produzir redações razoáveis, eu me achava bom  em Matemática e sofrível em Português. Assim, tive que me adaptar para sobreviver. Hoje estou  agradecido pelo movimento que a professora me possibilitou.

    Encontrei Dona Bárbara e sua fama no segundo ano do ginásio. O choque foi monumental. Bárbara, que nos ensinava a ser econômicos nos artigos, pressupunha o conhecimento da matéria prevista para anos anteriores, tivesse você estudado com ela antes ou não. Não sei se fazia isto acreditando no planejamento da matéria ou se, deliberadamente, usava um pouco de “terror” como metodologia. Não saber era tratado com muito rigor, pelo menos um rigor aparente. Na ocasião cheguei a achar a postura injusta e até desumana. Não era. Com seu estilo, Bárbara foi responsável por nos fazer construir nosso próprio aprendizado da língua portuguesa. Desafiava-nos a obter conhecimento com autonomia, lendo muito e buscando esclarecimentos na bibliografia indicada que encontrávamos na biblioteca da escola. No final, funcionava muito bem.

    Ainda tenho contato com vários dos seus alunos. Sem dúvida, vejo em cada um deles um brilho impar, um senso crítico aguçado e uma autoconfiança que, concordem ou não, devem pelo menos  em parte à excepcional formadora.    

    Tentarei explicar alguns dos motivos para aquele “terror” que marcou a uns mais que a outros.

    Havia uma  forma peculiar que usava para fixar um conceito ou corrigir um erro grave que surgia em algum momento. Quando um equívoco importante ocorria, Bárbara iniciava um processo no mínimo intrigante. Perguntava o que estava errado e passava a convocar os alunos na ordem da lista de presença. Outras vezes, em ordem inversa. A cada resposta incorreta, repetia o nome do infeliz, adicionando: “Nota zero!”, que anotava ou fingia anotar no seu diário de classe. Quando o erro era de um aluno que ela considerava particularmente capaz de apresentar a solução, o zero se seguia de um discurso de desapontamento que ninguém queria ouvir. Encontrada a forma correta, ninguém mais esquecia a lição. Hoje tenho certeza de que ela se divertia um pouco com isso.

    Este processo mantinha-nos alertas e em constante movimento em direção ao saber. Confesso era assustador para quem não a conhecesse. Sei de alguns alunos que não o suportaram e até mudaram de escola. Entretanto, para muitos, o “terror” foi se transformando em respeito e o respeito em admiração.

    Naquelas sessões de tortura, que com tempo foram ficando mais raras, quando eu sabia a resposta ficava esperando ansiosamente para a sequência me alcançar e, com júbilo, poder desvendar o mistério. Claro, quando não percebia qual era o equívoco, torcia para que alguém parasse a fila antes do vexame. Se tivesse que dizer que não sabia, a vergonha seria gigantesca. Não queria decepcioná-la.

    As aulas formais de Bárbara foram se tornando uma conversa entre pares. Ganhávamos confiança e nos apoderávamos do aprendizado.

    Excelente professora de literatura chocava alguns pais ao incluir a leitura de Crime do Padre Amaro no início do curso ginasial. Amadurecemos com as leituras e com as discussões com Dona Bárbara. Sabíamos distinguir os estilos dos vários movimentos literários. Correlacionávamos mudanças literárias com história, política e outras artes. Discutíamos Camões, nos encantava Machado e entendíamos, por exemplo, a retomada das tendências clássicas no movimento realista numa contraposição ao romantismo. Percebíamos o movimento cíclico motivado pela negação do que era superado ou negado até que o retomassem.

    Com o tempo e com nossa evolução, Barbara passou a mostrar sua confiança e orgulho no nosso amadurecimento intelectual. Tratava-nos como adultos, apesar dos nossos treze ou quatorze anos.

    Houve um episódio significativo no final da terceira ou quarta série do ginásio. Haveria uma apresentação teatral no estádio coberto do colégio. Eu e alguns colegas  seguíamos juntos para o evento, quando fomos impedidos de entrar por Juvenal, professor de educação física. Barrou-nos, pois se tratava de uma peça proibida para nossa idade. Só o pessoal mais velho seria admitido. Apresentariam O Beijo no Asfalto. Ficamos indignados, afinal éramos leitores de Eça de Queiroz, Ferreira de Castro, Graciliano Ramos e Aluísio de Azevedo. Sermos impedidos de assistir a Nelson Rodrigues era um absurdo. Procuramos imediatamente Dona Bárbara que, sem constrangimento, desautorizou Juvenal garantindo que aquela turma era suficientemente madura para qualquer tipo de arte.

    Passamos todos orgulhosamente pelo “general” Juvenal e pela porta do estádio.

    Por todos esses motivos ou por outros ainda mais difíceis de descrever Dona Bárbara tornou-se referência, símbolo, ícone de muitos de seus alunos. Claro que estou entre esses.

    Alunos do 4º ano Ginasial do CEEN Professor Jácomo Stávale com Dna Bárbara de óculos escuro (cortesia de Cleber Papa)

  • Casa da vó Maria (Crônica de Memórias de um paulistano)

    A família da minha mãe, com meus avós como primeira geração brasileira de imigrantes italianos, era nitidamente matriarcal. Vó Maria, uma senhora baixinha e quase cega, sobrevivente de cirurgias complicadas quando as grandes cirurgias frequentemente eram fatais, era sem dúvida o centro da família. Com meu calado avô, teve dois filhos e quatro filhas. Tanto meus tios quanto meu avô pouco opinavam sobre qualquer assunto. Na realidade, nem eram incluídos nas conversas, planos ou projetos da família. Qualquer assunto era para discussões entre a mãe e as quatro irmãs. O papel deles era nada além de trazer o salário para o sustento e outras necessidades das famílias modestas. A esposa de um dos tios foi incluída, com certa ressalva, ao matriarcado.

    Minha avó era uma grande contadora de histórias. Era espírita, dizia ter visões e reclamava das mãos dormentes, com pouca sensibilidade. Preferia sentar-se na velha poltrona do seu quarto, na penumbra, já que muita luz a incomodava. Entretanto, era uma pessoa muito interessante. Éramos vizinhos desde meus cinco ou seis anos, quando ela vendeu sua casa e foi morar com meus tios sem filhos. Eu passava horas ao lado dela, algumas vezes acompanhado da minha prima, ouvindo suas histórias da vida no interior.

    Minha mãe tinha uma casa asséptica, com poucas plantas. Não gostava de bagunça. A casa da minha tia era o local onde eu podia exercitar minha criatividade. Havia um galinheiro, onde podia ajudar a colher os ovos. Ocasionalmente, ajudava a destroncar o pescoço de algum frango. Minha avó, à medida que perdeu a força, inventou um método de matar os galináceos. Utilizava o cabo de uma vassoura sobre o pescoço da ave que era puxada pelos pés, até esticar. Aos sete anos eu a ajudava na empreitada. Algumas vezes terminei com o frango decapitado, debatendo-se no quintal. Cena horrorosa, mas não para aqueles dias.

    Limpar o frango era uma enorme diversão. Era tarefa da minha tia, mas assistida pelos três sobrinhos. Minha irmã, minha prima e eu ficávamos ajoelhados em cadeiras junto à pia. Atentamente, víamos primeiro o banho de água fervente para facilitar a depena. O processo era finalizado sobre as chamas do fogão, para queimar as últimas penugens.

    O frango depenado era colocado com as costas na pia. Uma incisão transversal no abdômen da ave dava acesso às vísceras. Todo o cuidado era pouco para não romper a bolsa de fel (creio que seria a vesícula biliar da ave) que era descartada com as tripas e o papo. Recuperava-se o coração, o fígado e a moela (que minha tia chamava de “magão”). A moela precisava ser limpa com um processo que consistia em se tirar uma membrana interna, que revestia esse órgão responsável por triturar os alimentos. Restos de milho moído saíam com essa membrana. Esses miúdos eram separados para uma deliciosa farofa.

    Destrinchar o frango limpo era uma tarefa de etapas precisas. A cabeça era desprezada, mas não o pescoço. Os pés eram bem lavados e as pontas dos dedos com as unhas eram descartadas. Em instantes o frango era transformado em duas coxas, duas sobrecoxas, pescoço, pés, coxas de asas, asas, e o peito, que era dividido em cinco pedaços, sendo o rabicho gorduroso um deles. Todo o espetáculo de cerca de meia hora era atenciosamente presenciado pelos três primos.

    A casa da vó Maria era também a casa da tia Nita. Era lá onde podia fazer pocinhos no quintal, encher de água, fazer manivela, puxar água, fazer barro. Era onde se aprendiam coisas e se exercitava a criatividade.

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  • Verdade (crônica de Deuses no divã)

    Tudo bem! Se preferirem me chamar de Deus, podem!

    Claro que vocês não têm a menor ideia do que eu sou. Ao procurarem, encontram tudo, exceto a mim mesma. Sou esquiva e impenetrável.

    Verdade, verdade esquiva,

    Que mais procuraria?

    Verdade

    Antes de tudo

    Que existe,

    Mesmo se nada existir.

    Absoluta verdade.

    É sem ser, haver ou porvir.

    Mesmo na poesia sou intrigante. Ao me procurarem usam metáforas, inventam falsos deuses, criam mitologias.

    É preciso que se conformem. Sou impenetrável, indecifrável, inexpugnável. Sou assim não por escolha, mas por sua limitação intelectual e física.

    Claro que sou a sedução das seduções. Estou nas suas questões primordiais, nos seus sonhos e pesadelos.

    Não quero ser cultuada, adorada ou temida. Não sou esse tipo de deus.

    Sou apenas intrigante e deixo-os aproximarem-se cada vez mais. Entretanto, vocês caminham apenas metade do percurso que resta, de cada vez. Isso é tão infinito como o espaço e tão eterno quanto o tempo. Se acham que já compreenderam espaço e tempo, esperem sua próxima descoberta! Desculpem-me se há sarcasmo nessas palavras, não quero zombar de ninguém.

    A eternidade é logo alí,

    Logo após o tempo todo;

    No início do que não começa,

    Logo após o que não cessa.

    Não quero desencorajá-los. Apenas confortá-los do fracasso no seu sucesso. Saberão vocês cada vez mais e sentirão orgulho das suas conquistas. É assim que é para ser. Não há limite para o aumento da sua sabedoria.

    Entretanto, sempre haverá mais e mais por saber, porque eu sou a verdade.

    Eu sou o EU SOU.

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  • Deus volátil das Sociedades Secretas (Poema de Deuses no divã)

    Não gosto de política. Confrarias me irritam muito.

    Desde muitos anos usam sua rede para benefícios mútuos, fechados entre si.  Grandes movimentos políticos e sociais tiveram por trás essa rede eficiente de agregados. Até aí nada a ver comigo.

    Esses agregados, a princípio se dizem laicos, entretanto acolhem uma filosofia e um conceito de um Deus, digamos, genérico. Isso mesmo, não um Deus denominacional com marca registrada. Não um Jeová judaico ou um Alá mulçumano, não um Zeus grego ou um Odin escandinavo, mas um criador genérico, uma espécie de arquiteto da criação.

    Esse Deus volátil e incomunicável me deixa preocupado. Como irá minha criação entender os meus desígnios? Esse Deus silencioso e desocupado com a humanidade me faz parecer um tanto relapso.

    Criei e larguei ao Deus dará! Quero dizer, a ninguém dará.

    Assim, esse eu, nem eu mesmo me entendo direito. Na verdade, assim, pareço um Deus esquizofrênico.

    Essa gente faz uma salada de frutas de deuses. Vale qualquer coisa, de Jeová a Baal do paganismo pré-judaico. Até o próprio Lúcifer, deus dos satanistas e feiticeiros, pode entrar no jogo.

    Preferiria fossem ateus. Pelo menos deixariam me locupletar na inexistência.

    Disse o poeta, após a longa procura:

    “Talvez nem Te ocupes de existir…

    Me abandonas desesperançado,

    Procurando e procurando…

    Até que eu mesmo me junte a Ti.”

    Ao menos na inexistência sou um Deus consistente.

    Mas esse Deus genérico das lojinhas, Deus me livre de Mim mesmo!

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  • Deus e os espíritos (Crônica de Deuses no divã)

    Eu sou um deus que era judaico, virei cristão e hoje sou o que sou. Sou um deus em evolução, certo?

    Nem sempre os espíritos foram coisas corriqueiras. O espírito de Deus que voava sobre as águas era uma existência única e transcendental. Obviamente, não havia outros espíritos voando sobre as águas lá no caos, antes da criação. Nem havia antes, pois não havia o tempo ou o espaço.

    Na minha própria evolução achei muito interessante esse negócio de alma que vai e vem, que vive e desvive até atingir um ápice. Dessa forma, tornei-me esse Deus do desenvolvimento espiritual através das várias experiências de vida. Um Deus muito associado à forma como atua todo o processo da vida na Terra.

    Amebas não tinham almas. Ou tinham? Não me lembro bem, pois faz muito tempo. Mas sei que macacos tinham alma, pois eram almas viventes.  Em algum momento os espíritos de macacos foram se tornando espíritos de Neandertais, de Homo Erectus e Homo Sapiens. Não contem ao outro Deus que fui eu, mas eu não acredito nessa história de Adão e Eva!

    Entretanto, tem uma coisa que me incomoda bastante nesse processo de evolução espiritual. Não fico muito confortável com os aspectos matemáticos desse sistema.

    Sabemos que a humanidade, nos dias de hoje, soma mais de sete bilhões de almas viventes. Na época de Cristo a humanidade não passava de duzentos milhões. Era muito menor antes disso. Quando as primeiras amebas surgiram eram pouquíssimas.

    Cada uma das almas viventes de hoje vai falando de todas suas outras estadas nesse planeta, nas suas várias vidas passadas. Nas regressões que fazem muitos foram reis da idade média, piratas, faraós, entre outras coisas. Alguns foram tudo isso. Todos os sete bilhões tem histórias e experiências parecidas quando conversam comigo.

    Aí é que eu fico confuso comigo mesmo. Ainda que pegássemos todas as gerações até a época de Cristo, não dá para todos os sete bilhões terem tido todas essas experiências. No melhor das hipóteses, a grande parte dessas almas são almas de primeira viagem com mania de grandeza. Eu diria que tem encosto nessas histórias!

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