WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

  • O beijo no asfalto (Crônica de Memórias de um paulistano)

    “Quando andares sozinho, distraído,
    nas ruas da cidade, onde, por vezes
    vibram sorrisos ou se oculta um pranto: —
    Não te esqueças de mim, que te amo tanto!…”

    (trecho do poema “Balada da saudade” de Bárbara Vasconcelos de Carvalho)

    Bárbara Vasconcelos de Carvalho, Dona Bárbara, era orgulhosamente baiana, escritora, poetiza, educadora e professora singular!

    No Jácomo Stávale, Bárbara foi das mais queridas entre os professores para muitos de seus alunos. Entretanto, não podia ser unanimidade. Sua significância não permitiria tal coisa. Na verdade, foi  detestada por alguns alunos.

    Testemunhei em um site de crônicas um pouco dessa antipatia e até rancor para com a excepcional educadora. O curioso é que, mesmo nos textos desses ex-alunos que teceram palavras de ressentimento, eu pude ver a marca da professora de português.

    Por ocasião da morte de Dona Bárbara, eu encontrei uma nota de uma ex-aluna que se despediu com um “Já vai tarde!”. Na crítica amarga à professora eu pude perceber uma redação muito bem escrita, sem erros, sem vícios e com muita clareza. Era possível notar alguns dos ensinamentos e mesmo a influência da professora na escrita apresentada. Resolvi postar um comentário à ex-aluna dizendo exatamente isto. Não tive resposta.

    Claro que entendo os motivos dessa dicotomia.

    Hábil com os números e lógica, embora capaz de produzir redações razoáveis, eu me achava bom  em Matemática e sofrível em Português. Assim, tive que me adaptar para sobreviver. Hoje estou  agradecido pelo movimento que a professora me possibilitou.

    Encontrei Dona Bárbara e sua fama no segundo ano do ginásio. O choque foi monumental. Bárbara, que nos ensinava a ser econômicos nos artigos, pressupunha o conhecimento da matéria prevista para anos anteriores, tivesse você estudado com ela antes ou não. Não sei se fazia isto acreditando no planejamento da matéria ou se, deliberadamente, usava um pouco de “terror” como metodologia. Não saber era tratado com muito rigor, pelo menos um rigor aparente. Na ocasião cheguei a achar a postura injusta e até desumana. Não era. Com seu estilo, Bárbara foi responsável por nos fazer construir nosso próprio aprendizado da língua portuguesa. Desafiava-nos a obter conhecimento com autonomia, lendo muito e buscando esclarecimentos na bibliografia indicada que encontrávamos na biblioteca da escola. No final, funcionava muito bem.

    Ainda tenho contato com vários dos seus alunos. Sem dúvida, vejo em cada um deles um brilho impar, um senso crítico aguçado e uma autoconfiança que, concordem ou não, devem pelo menos  em parte à excepcional formadora.    

    Tentarei explicar alguns dos motivos para aquele “terror” que marcou a uns mais que a outros.

    Havia uma  forma peculiar que usava para fixar um conceito ou corrigir um erro grave que surgia em algum momento. Quando um equívoco importante ocorria, Bárbara iniciava um processo no mínimo intrigante. Perguntava o que estava errado e passava a convocar os alunos na ordem da lista de presença. Outras vezes, em ordem inversa. A cada resposta incorreta, repetia o nome do infeliz, adicionando: “Nota zero!”, que anotava ou fingia anotar no seu diário de classe. Quando o erro era de um aluno que ela considerava particularmente capaz de apresentar a solução, o zero se seguia de um discurso de desapontamento que ninguém queria ouvir. Encontrada a forma correta, ninguém mais esquecia a lição. Hoje tenho certeza de que ela se divertia um pouco com isso.

    Este processo mantinha-nos alertas e em constante movimento em direção ao saber. Confesso era assustador para quem não a conhecesse. Sei de alguns alunos que não o suportaram e até mudaram de escola. Entretanto, para muitos, o “terror” foi se transformando em respeito e o respeito em admiração.

    Naquelas sessões de tortura, que com tempo foram ficando mais raras, quando eu sabia a resposta ficava esperando ansiosamente para a sequência me alcançar e, com júbilo, poder desvendar o mistério. Claro, quando não percebia qual era o equívoco, torcia para que alguém parasse a fila antes do vexame. Se tivesse que dizer que não sabia, a vergonha seria gigantesca. Não queria decepcioná-la.

    As aulas formais de Bárbara foram se tornando uma conversa entre pares. Ganhávamos confiança e nos apoderávamos do aprendizado.

    Excelente professora de literatura chocava alguns pais ao incluir a leitura de Crime do Padre Amaro no início do curso ginasial. Amadurecemos com as leituras e com as discussões com Dona Bárbara. Sabíamos distinguir os estilos dos vários movimentos literários. Correlacionávamos mudanças literárias com história, política e outras artes. Discutíamos Camões, nos encantava Machado e entendíamos, por exemplo, a retomada das tendências clássicas no movimento realista numa contraposição ao romantismo. Percebíamos o movimento cíclico motivado pela negação do que era superado ou negado até que o retomassem.

    Com o tempo e com nossa evolução, Barbara passou a mostrar sua confiança e orgulho no nosso amadurecimento intelectual. Tratava-nos como adultos, apesar dos nossos treze ou quatorze anos.

    Houve um episódio significativo no final da terceira ou quarta série do ginásio. Haveria uma apresentação teatral no estádio coberto do colégio. Eu e alguns colegas  seguíamos juntos para o evento, quando fomos impedidos de entrar por Juvenal, professor de educação física. Barrou-nos, pois se tratava de uma peça proibida para nossa idade. Só o pessoal mais velho seria admitido. Apresentariam O Beijo no Asfalto. Ficamos indignados, afinal éramos leitores de Eça de Queiroz, Ferreira de Castro, Graciliano Ramos e Aluísio de Azevedo. Sermos impedidos de assistir a Nelson Rodrigues era um absurdo. Procuramos imediatamente Dona Bárbara que, sem constrangimento, desautorizou Juvenal garantindo que aquela turma era suficientemente madura para qualquer tipo de arte.

    Passamos todos orgulhosamente pelo “general” Juvenal e pela porta do estádio.

    Por todos esses motivos ou por outros ainda mais difíceis de descrever Dona Bárbara tornou-se referência, símbolo, ícone de muitos de seus alunos. Claro que estou entre esses.

    Alunos do 4º ano Ginasial do CEEN Professor Jácomo Stávale com Dna Bárbara de óculos escuro (cortesia de Cleber Papa)

  • Casa da vó Maria (Crônica de Memórias de um paulistano)

    A família da minha mãe, com meus avós como primeira geração brasileira de imigrantes italianos, era nitidamente matriarcal. Vó Maria, uma senhora baixinha e quase cega, sobrevivente de cirurgias complicadas quando as grandes cirurgias frequentemente eram fatais, era sem dúvida o centro da família. Com meu calado avô, teve dois filhos e quatro filhas. Tanto meus tios quanto meu avô pouco opinavam sobre qualquer assunto. Na realidade, nem eram incluídos nas conversas, planos ou projetos da família. Qualquer assunto era para discussões entre a mãe e as quatro irmãs. O papel deles era nada além de trazer o salário para o sustento e outras necessidades das famílias modestas. A esposa de um dos tios foi incluída, com certa ressalva, ao matriarcado.

    Minha avó era uma grande contadora de histórias. Era espírita, dizia ter visões e reclamava das mãos dormentes, com pouca sensibilidade. Preferia sentar-se na velha poltrona do seu quarto, na penumbra, já que muita luz a incomodava. Entretanto, era uma pessoa muito interessante. Éramos vizinhos desde meus cinco ou seis anos, quando ela vendeu sua casa e foi morar com meus tios sem filhos. Eu passava horas ao lado dela, algumas vezes acompanhado da minha prima, ouvindo suas histórias da vida no interior.

    Minha mãe tinha uma casa asséptica, com poucas plantas. Não gostava de bagunça. A casa da minha tia era o local onde eu podia exercitar minha criatividade. Havia um galinheiro, onde podia ajudar a colher os ovos. Ocasionalmente, ajudava a destroncar o pescoço de algum frango. Minha avó, à medida que perdeu a força, inventou um método de matar os galináceos. Utilizava o cabo de uma vassoura sobre o pescoço da ave que era puxada pelos pés, até esticar. Aos sete anos eu a ajudava na empreitada. Algumas vezes terminei com o frango decapitado, debatendo-se no quintal. Cena horrorosa, mas não para aqueles dias.

    Limpar o frango era uma enorme diversão. Era tarefa da minha tia, mas assistida pelos três sobrinhos. Minha irmã, minha prima e eu ficávamos ajoelhados em cadeiras junto à pia. Atentamente, víamos primeiro o banho de água fervente para facilitar a depena. O processo era finalizado sobre as chamas do fogão, para queimar as últimas penugens.

    O frango depenado era colocado com as costas na pia. Uma incisão transversal no abdômen da ave dava acesso às vísceras. Todo o cuidado era pouco para não romper a bolsa de fel (creio que seria a vesícula biliar da ave) que era descartada com as tripas e o papo. Recuperava-se o coração, o fígado e a moela (que minha tia chamava de “magão”). A moela precisava ser limpa com um processo que consistia em se tirar uma membrana interna, que revestia esse órgão responsável por triturar os alimentos. Restos de milho moído saíam com essa membrana. Esses miúdos eram separados para uma deliciosa farofa.

    Destrinchar o frango limpo era uma tarefa de etapas precisas. A cabeça era desprezada, mas não o pescoço. Os pés eram bem lavados e as pontas dos dedos com as unhas eram descartadas. Em instantes o frango era transformado em duas coxas, duas sobrecoxas, pescoço, pés, coxas de asas, asas, e o peito, que era dividido em cinco pedaços, sendo o rabicho gorduroso um deles. Todo o espetáculo de cerca de meia hora era atenciosamente presenciado pelos três primos.

    A casa da vó Maria era também a casa da tia Nita. Era lá onde podia fazer pocinhos no quintal, encher de água, fazer manivela, puxar água, fazer barro. Era onde se aprendiam coisas e se exercitava a criatividade.

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  • Verdade (crônica de Deuses no divã)

    Tudo bem! Se preferirem me chamar de Deus, podem!

    Claro que vocês não têm a menor ideia do que eu sou. Ao procurarem, encontram tudo, exceto a mim mesma. Sou esquiva e impenetrável.

    Verdade, verdade esquiva,

    Que mais procuraria?

    Verdade

    Antes de tudo

    Que existe,

    Mesmo se nada existir.

    Absoluta verdade.

    É sem ser, haver ou porvir.

    Mesmo na poesia sou intrigante. Ao me procurarem usam metáforas, inventam falsos deuses, criam mitologias.

    É preciso que se conformem. Sou impenetrável, indecifrável, inexpugnável. Sou assim não por escolha, mas por sua limitação intelectual e física.

    Claro que sou a sedução das seduções. Estou nas suas questões primordiais, nos seus sonhos e pesadelos.

    Não quero ser cultuada, adorada ou temida. Não sou esse tipo de deus.

    Sou apenas intrigante e deixo-os aproximarem-se cada vez mais. Entretanto, vocês caminham apenas metade do percurso que resta, de cada vez. Isso é tão infinito como o espaço e tão eterno quanto o tempo. Se acham que já compreenderam espaço e tempo, esperem sua próxima descoberta! Desculpem-me se há sarcasmo nessas palavras, não quero zombar de ninguém.

    A eternidade é logo alí,

    Logo após o tempo todo;

    No início do que não começa,

    Logo após o que não cessa.

    Não quero desencorajá-los. Apenas confortá-los do fracasso no seu sucesso. Saberão vocês cada vez mais e sentirão orgulho das suas conquistas. É assim que é para ser. Não há limite para o aumento da sua sabedoria.

    Entretanto, sempre haverá mais e mais por saber, porque eu sou a verdade.

    Eu sou o EU SOU.

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  • Deus volátil das Sociedades Secretas (Poema de Deuses no divã)

    Não gosto de política. Confrarias me irritam muito.

    Desde muitos anos usam sua rede para benefícios mútuos, fechados entre si.  Grandes movimentos políticos e sociais tiveram por trás essa rede eficiente de agregados. Até aí nada a ver comigo.

    Esses agregados, a princípio se dizem laicos, entretanto acolhem uma filosofia e um conceito de um Deus, digamos, genérico. Isso mesmo, não um Deus denominacional com marca registrada. Não um Jeová judaico ou um Alá mulçumano, não um Zeus grego ou um Odin escandinavo, mas um criador genérico, uma espécie de arquiteto da criação.

    Esse Deus volátil e incomunicável me deixa preocupado. Como irá minha criação entender os meus desígnios? Esse Deus silencioso e desocupado com a humanidade me faz parecer um tanto relapso.

    Criei e larguei ao Deus dará! Quero dizer, a ninguém dará.

    Assim, esse eu, nem eu mesmo me entendo direito. Na verdade, assim, pareço um Deus esquizofrênico.

    Essa gente faz uma salada de frutas de deuses. Vale qualquer coisa, de Jeová a Baal do paganismo pré-judaico. Até o próprio Lúcifer, deus dos satanistas e feiticeiros, pode entrar no jogo.

    Preferiria fossem ateus. Pelo menos deixariam me locupletar na inexistência.

    Disse o poeta, após a longa procura:

    “Talvez nem Te ocupes de existir…

    Me abandonas desesperançado,

    Procurando e procurando…

    Até que eu mesmo me junte a Ti.”

    Ao menos na inexistência sou um Deus consistente.

    Mas esse Deus genérico das lojinhas, Deus me livre de Mim mesmo!

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  • Deus e os espíritos (Crônica de Deuses no divã)

    Eu sou um deus que era judaico, virei cristão e hoje sou o que sou. Sou um deus em evolução, certo?

    Nem sempre os espíritos foram coisas corriqueiras. O espírito de Deus que voava sobre as águas era uma existência única e transcendental. Obviamente, não havia outros espíritos voando sobre as águas lá no caos, antes da criação. Nem havia antes, pois não havia o tempo ou o espaço.

    Na minha própria evolução achei muito interessante esse negócio de alma que vai e vem, que vive e desvive até atingir um ápice. Dessa forma, tornei-me esse Deus do desenvolvimento espiritual através das várias experiências de vida. Um Deus muito associado à forma como atua todo o processo da vida na Terra.

    Amebas não tinham almas. Ou tinham? Não me lembro bem, pois faz muito tempo. Mas sei que macacos tinham alma, pois eram almas viventes.  Em algum momento os espíritos de macacos foram se tornando espíritos de Neandertais, de Homo Erectus e Homo Sapiens. Não contem ao outro Deus que fui eu, mas eu não acredito nessa história de Adão e Eva!

    Entretanto, tem uma coisa que me incomoda bastante nesse processo de evolução espiritual. Não fico muito confortável com os aspectos matemáticos desse sistema.

    Sabemos que a humanidade, nos dias de hoje, soma mais de sete bilhões de almas viventes. Na época de Cristo a humanidade não passava de duzentos milhões. Era muito menor antes disso. Quando as primeiras amebas surgiram eram pouquíssimas.

    Cada uma das almas viventes de hoje vai falando de todas suas outras estadas nesse planeta, nas suas várias vidas passadas. Nas regressões que fazem muitos foram reis da idade média, piratas, faraós, entre outras coisas. Alguns foram tudo isso. Todos os sete bilhões tem histórias e experiências parecidas quando conversam comigo.

    Aí é que eu fico confuso comigo mesmo. Ainda que pegássemos todas as gerações até a época de Cristo, não dá para todos os sete bilhões terem tido todas essas experiências. No melhor das hipóteses, a grande parte dessas almas são almas de primeira viagem com mania de grandeza. Eu diria que tem encosto nessas histórias!

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  • PARIDADE ENTRE MOEDAS (texto de WAGNER RODRIGUES)

    Ao longo do tempo, produtos e serviços tendem a ser ajustados às inflações de cada economia. Momentaneamente podem ficar escassos e se valorizar em relação a outros, mas, eventualmente voltam ao patamar que lhes cabe. Se algo vale muito mais que custa, em termos de custo e remuneração do capital investido, atrairá empreendedores para sua produção, ajustando o eventual desajuste.

    Principalmente em economias que mantem o câmbio flutuando pelas forças de mercado, como no Brasil e nos USA, desajustes tentem a ser compensados ao logo dos anos. Assim, espera-se que o câmbio vá se ajustando com as diferenças de inflação desses países. “Commodities” por serem produtos sem grandes segredos de produção e facilmente globalizados são fatores que ajudam nessa compensação. Soja, petróleo, aço, minério de ferro são exemplos de “commodities”.

    Assim, se um país é mais inflacionário que o outro, espera-se que, com o tempo, haja uma desvalorização relativa da moeda do país com mais inflação em relação ao outro.

    Os governos não deveriam, mas podem interferir na forma com que alguns índices de inflação são calculados. Felizmente orgãos independentes atuam nesses países minimizando essa intervenção. Bens pouco intercambiáveis como prestação de serviços, por exemplo, podem ser desvalorizados em uma economia subdesenvolvida em relação à outra mais desenvolvida causando algum ruído à lógica do ajuste do câmbio pelas diferenças de inflação.

    Venho acompanhando faz algum tempo as várias moedas do Brasil em relação ao dólar e tentado analisar momentos de supervalorização de uma moeda em relação à outra e verificar se elas tendem a se ajustar com o passsar do tempo.

    Criei um tipo de algoritmo para esse fim que chamei de “paridade”.

    Montei três séries de dados com o mesmo tipo de análise.

    1. Análise de logo prazo com dados de 1965 até 2024
    2. Análise de logo prazo com dados de 1980 até 2024
    3. Análise de logo prazo com dados de 1995 até 2024

    Como inflação brasileira usei o IGP-DI em todas as análises e o IGP-DI e o IPCA para as análises a partir da criação do IPCA em 1979.  Usei essas duas inflações, pois elas têm sido relativamente distintas ao longo do tempo, sendo que o IPCA afeta mais o consumidor enquanto o IGP afeta mais a indústria. Para o USA usei o CPI (Consumer price index) publicado pelo “U.S. Labor Department’s Bureau of Labor Statistics”.

    Na modelagem calculei um índice a inflação brasileira em dólares (ajustada pela variação cambial) e a comparei com o índice da inflação americana. Num mundo ideal a relação entre esses dois índices devia dar “1”. Mas dependendo do período existe alguma distorção. Assim, graficamente, eu ajusto essa relação para dar 1 através de um fator de ajuste (deslocamento da curva). Chamei essa relação ajustada de “IPCA ou IGP based Parity BRL vs US$ Avg=1.00”. Isso faz com que eu aceite que na média do período analisado o câmbio seja “justo”, havendo períodos de supervalorização de uma ou outra moeda ao longo do tempo. As três análises não exigiram ajustes exagerados, tendo havido pouco deslocamento das curvas para que a média resultasse na unidade (chamo isto de paridade “justa”).

    Aqui seguem os gráficos da análise dos tempos mais recentes (1995 até hoje):

    Agora os resultados para o período intermediário (1980-hoje):

    E em seguida o período mais longo (1965 até hoje):

    Notamos que, mesmo nesse período muito longo, o deslocamento para a média continuar dando “1” não é muito grande. Isto é, existe uma paridade entre “Reais” e “Dólares” ao longo do tempo e hoje, em meados de 2025, estamos numa posição de câmbios bastante próximo ao justo ou ao que vem ocorrendo desde há muito tempo.

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  • Homem não escolhe

    Menina bonita, sem anel no seu dedo,

    Seu olhar maroto guarda um segredo.

    Deve me alegrar ou devo estar com medo?

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  • Adeus, Dona Cegonha (Crônica de Memórias de um paulsitano)

    Na década de 50, para as famílias italianas como a minha,  a gravidez era cercada de metáforas. Fulana está em estado interessante, cicrana está “esperando a cegonha” e até algumas mais estranhas como “fulana está puxando vagão”, como dizia minha tia com seu jeito meio maroto de dizer as coisas. Nem quero imaginar o porquê da expressão!

    A criançada acreditava em cegonha tempos depois de desacreditar em papai Noel. Lá pelos meus seis a sete anos, estava claro para mim que todas as mães que esperavam a cegonha tinham enormes barrigas. Assim, achava que o bebê devia estar lá dentro. Sabia que o bebê, eventualmente, sairia de lá de algum modo. De forma alguma viria pendurado em bico de cegonha. Afinal, cegonha era ave somente dos livros, imaginava. Por ali só havia alguns gaviões e urubus grandes o bastante para a empreitada. Não fazia a menor ideia de como o bebê tinha entrado nas barrigas, mas já achava que os maridos tinham algo a ver com aquilo. Talvez fosse alguma coisa que ocorria durante o beijo, ponderava. Mas esse tipo de coisa não se discutia com a criançada.

    Com tempo e com os cachorros da vizinhança o enigma foi resolvido. Muito antes, porém, havia uma vizinha que estava por dar a luz. Minha família e as de outros dois tios eram vizinhas. Frequentemente minha irmã mais nova e eu, brincávamos com uma prima da  minha idade. Para desespero das duas meninas, ao brincarmos de programas de auditório, eu me anunciava com a música “A Deusa do Asfalto”, gravada por Nelson Gonçalves. Eu cantava, a plenos pulmões, a primeira e segunda partes da música perante a angustiante impaciência das meninas. Num desses dias, no intervalo das músicas, minha prima comentou  que sua mãe havia dito que a cegonha iria trazer o bebê da vizinha.

    Sem qualquer malícia emendei dizendo que largasse mão de ser boba, claro que o bebê estava na barriga da moça, não via como estava gorda?

    Minha prima reagiu mal, mas deve ter pensado que o que eu havia dito fazia algum sentido. À noite contou à sua mãe. No dia seguinte as mulheres do clã me interrogaram se, de fato, tinha dito tal coisa. Confirmei e esperei a reação que não veio. Acho que perante o óbvio das minhas considerações ficaram sem argumentos.

    Naquele mesmo dia, a cegonha da família voou para outras paragens.

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  • Thriller da Vila Anastácio (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Domingo à tarde meu primo e eu seguíamos a pé do Piqueri à Avenida Raimundo Pereira de Magalhães. Esta rua era o início da Estrada Velha de Campinas, só que na outra margem do Rio Tiete, na Vila Anastácio. Eu tinha uns treze anos e meu primo dois anos mais.

    Subíamos a Pedro Cubas, atravessávamos a favela do Buraco Quente e descíamos para a várzea do Rio Tietê até a ponte da Estrada de Ferro que cruzava o rio.

    Para o pedestre, a ponte ferroviária era o caminho mais curto para alcançar os campos de futebol da Vila Anastácio, como o campo do Vaticano, mais próximo ao quartel e o campo do Nacional. Esses campos ficavam ao lado da oficina de trens.

    Atravessar a ponte ferroviária era a adrenalina dos anos 60. Outro primo, quando pequeno, atravessara com o pai quando um trem passou. Tiveram que refugiar-se  nos “salva vidas”, pequenas cestas que deixavam de um lado as enormes e ruidosas rodas de ferro do trem em movimento e do outro as águas correntes do rio Tietê. O menino ficou mudo por mais de um mês. Já na puberdade tive esta experiência e, confesso, foi apavorante.

    O campo do Nacional ficava em um grande parque repleto de eucaliptos, um lugar bem agradável para um passeio. Ao chegarmos, nos debruçamos nas grades brancas de madeira para assistir a uma partida que acontecia. Era um dia muito agradável, ensolarado e a sombra dos eucaliptos dava uma sensação de muita tranquilidade.

    Inesperadamente, talvez por um lance mais ríspido, alguns jogadores começaram uma briga. O tumulto foi aumentando e a torcida começou a se envolver. Em segundos tudo se transformou  em  uma cena de guerra: voadoras, pauladas, fratura exposta, gritos de raiva e de dor. Ficamos apavorados, éramos estranhos, sem amigos de quaisquer dos lados.

    A briga veio em nossa direção e, apavorado, eu queria correr. Meu primo, um pouco mais experiente, sugeriu que saíssemos devagar, passeando, como quem não quisesse nada. Ao atingirmos a avenida, saímos em disparada e só paramos do outro lado do rio.

    Aquele supostamente calmo passeio de domingo transformou-se num apavorante thriller da Vila Anastácio.   

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  • Além da imaginação (crônica de Memórias de um paulistano)

    No fim da década de sessentao fim da década de sessentamuitos assistiram à série que começava com  uma intrigante narrativa: “Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação.

    Mais que o tema, havia a inesquecível trilha sonora que fazia com que os pelos do braço se arrepiassem mesmo antes de qualquer história.

    As tramas contadas não eram histórias de terror e praticamente não traziam  efeitos especiais. Era a história, sempre intrigante, perto do real ou do possível, talvez prognóstica de futuro remoto, o que criava todo o clima da série.

    Há um capítulo em especial cujo título era “Um homem só (The lonely)” que jamais esqueci e que, imagino, possa ter inspirado romances e filmes como “Inteligência Artificial” ou “O Homem Bicentenário”.

    A história contava sobre um homem que é condenado a viver solitário em um planeta distante por muitos anos.  O homem somente escapa da loucura pela companhia de uma máquina (um robô) feminina, com toda a aparência e desempenho de uma mulher verdadeira. Esta lhe é deixada por compaixão. A princípio ela é rejeitada, mas,  com o tempo, o homem aprende a amá-la de verdade.

    O final, como sempre, é dramático e enigmático. Cumprida a pena vem o tempo do seu resgate. Mas ocorre um acidente e a nave fica com pouco combustível  para o retorno. Assim precisa ser aliviada de peso e o capitão define que a mulher robô tem que ser deixada no planeta. O condenado fica desesperado, mas com um tiro na cabeça da mulher robô ela começa a destruir-se. Então, com aparência de máquina, fica  repetindo o nome do homem que a amou, deixando a questão de se afinal a máquina sentiria o mesmo.

    A questão da autoconsciência é inevitavelmente levantada.

    Onde está o limite da consciência de si? Estará no ser humano, mesmo nos  Neandertais? E os primatas teriam autoconsciência? E os outros animais e seres vivos? Será possível repetir artificialmente as sinapses que definem o sentimento?

    Descartes apresenta um silogismo inclusivo, mas não restritivo em seu “Penso, logo existo”. Mas ao racionalizar a existência da autoconsciência,  da auto percepção, posso estendê-la com facilidade até outros seres humanos. Mas por que não até minha cachorrinha?

    Onde fazer o corte e por qual motivo?

    Talvez mesmo a máquina ao decodificar, responder, acumular informação possa dominar a linguagem e a comunicação. Se ela puder se socializar e tiver, na sua mecânica, coisa parecida com as relações neuronais que permitem o sentimento, o que faltaria para o seu autoconhecimento.

    Como vê, Além da Imaginação fazia mais que entreter, levava-nos a pensar, a expandir nossa mente. Também não nos deixava dormir direito nas  noites do seriado.

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