WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

  • Verdade (crônica de Deuses no divã)

    Tudo bem! Se preferirem me chamar de Deus, podem!

    Claro que vocês não têm a menor ideia do que eu sou. Ao procurarem, encontram tudo, exceto a mim mesma. Sou esquiva e impenetrável.

    Verdade, verdade esquiva,

    Que mais procuraria?

    Verdade

    Antes de tudo

    Que existe,

    Mesmo se nada existir.

    Absoluta verdade.

    É sem ser, haver ou porvir.

    Mesmo na poesia sou intrigante. Ao me procurarem usam metáforas, inventam falsos deuses, criam mitologias.

    É preciso que se conformem. Sou impenetrável, indecifrável, inexpugnável. Sou assim não por escolha, mas por sua limitação intelectual e física.

    Claro que sou a sedução das seduções. Estou nas suas questões primordiais, nos seus sonhos e pesadelos.

    Não quero ser cultuada, adorada ou temida. Não sou esse tipo de deus.

    Sou apenas intrigante e deixo-os aproximarem-se cada vez mais. Entretanto, vocês caminham apenas metade do percurso que resta, de cada vez. Isso é tão infinito como o espaço e tão eterno quanto o tempo. Se acham que já compreenderam espaço e tempo, esperem sua próxima descoberta! Desculpem-me se há sarcasmo nessas palavras, não quero zombar de ninguém.

    A eternidade é logo alí,

    Logo após o tempo todo;

    No início do que não começa,

    Logo após o que não cessa.

    Não quero desencorajá-los. Apenas confortá-los do fracasso no seu sucesso. Saberão vocês cada vez mais e sentirão orgulho das suas conquistas. É assim que é para ser. Não há limite para o aumento da sua sabedoria.

    Entretanto, sempre haverá mais e mais por saber, porque eu sou a verdade.

    Eu sou o EU SOU.

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  • Deus volátil das Sociedades Secretas (Poema de Deuses no divã)

    Não gosto de política. Confrarias me irritam muito.

    Desde muitos anos usam sua rede para benefícios mútuos, fechados entre si.  Grandes movimentos políticos e sociais tiveram por trás essa rede eficiente de agregados. Até aí nada a ver comigo.

    Esses agregados, a princípio se dizem laicos, entretanto acolhem uma filosofia e um conceito de um Deus, digamos, genérico. Isso mesmo, não um Deus denominacional com marca registrada. Não um Jeová judaico ou um Alá mulçumano, não um Zeus grego ou um Odin escandinavo, mas um criador genérico, uma espécie de arquiteto da criação.

    Esse Deus volátil e incomunicável me deixa preocupado. Como irá minha criação entender os meus desígnios? Esse Deus silencioso e desocupado com a humanidade me faz parecer um tanto relapso.

    Criei e larguei ao Deus dará! Quero dizer, a ninguém dará.

    Assim, esse eu, nem eu mesmo me entendo direito. Na verdade, assim, pareço um Deus esquizofrênico.

    Essa gente faz uma salada de frutas de deuses. Vale qualquer coisa, de Jeová a Baal do paganismo pré-judaico. Até o próprio Lúcifer, deus dos satanistas e feiticeiros, pode entrar no jogo.

    Preferiria fossem ateus. Pelo menos deixariam me locupletar na inexistência.

    Disse o poeta, após a longa procura:

    “Talvez nem Te ocupes de existir…

    Me abandonas desesperançado,

    Procurando e procurando…

    Até que eu mesmo me junte a Ti.”

    Ao menos na inexistência sou um Deus consistente.

    Mas esse Deus genérico das lojinhas, Deus me livre de Mim mesmo!

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  • Deus e os espíritos (Crônica de Deuses no divã)

    Eu sou um deus que era judaico, virei cristão e hoje sou o que sou. Sou um deus em evolução, certo?

    Nem sempre os espíritos foram coisas corriqueiras. O espírito de Deus que voava sobre as águas era uma existência única e transcendental. Obviamente, não havia outros espíritos voando sobre as águas lá no caos, antes da criação. Nem havia antes, pois não havia o tempo ou o espaço.

    Na minha própria evolução achei muito interessante esse negócio de alma que vai e vem, que vive e desvive até atingir um ápice. Dessa forma, tornei-me esse Deus do desenvolvimento espiritual através das várias experiências de vida. Um Deus muito associado à forma como atua todo o processo da vida na Terra.

    Amebas não tinham almas. Ou tinham? Não me lembro bem, pois faz muito tempo. Mas sei que macacos tinham alma, pois eram almas viventes.  Em algum momento os espíritos de macacos foram se tornando espíritos de Neandertais, de Homo Erectus e Homo Sapiens. Não contem ao outro Deus que fui eu, mas eu não acredito nessa história de Adão e Eva!

    Entretanto, tem uma coisa que me incomoda bastante nesse processo de evolução espiritual. Não fico muito confortável com os aspectos matemáticos desse sistema.

    Sabemos que a humanidade, nos dias de hoje, soma mais de sete bilhões de almas viventes. Na época de Cristo a humanidade não passava de duzentos milhões. Era muito menor antes disso. Quando as primeiras amebas surgiram eram pouquíssimas.

    Cada uma das almas viventes de hoje vai falando de todas suas outras estadas nesse planeta, nas suas várias vidas passadas. Nas regressões que fazem muitos foram reis da idade média, piratas, faraós, entre outras coisas. Alguns foram tudo isso. Todos os sete bilhões tem histórias e experiências parecidas quando conversam comigo.

    Aí é que eu fico confuso comigo mesmo. Ainda que pegássemos todas as gerações até a época de Cristo, não dá para todos os sete bilhões terem tido todas essas experiências. No melhor das hipóteses, a grande parte dessas almas são almas de primeira viagem com mania de grandeza. Eu diria que tem encosto nessas histórias!

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  • PARIDADE ENTRE MOEDAS (texto de WAGNER RODRIGUES)

    Ao longo do tempo, produtos e serviços tendem a ser ajustados às inflações de cada economia. Momentaneamente podem ficar escassos e se valorizar em relação a outros, mas, eventualmente voltam ao patamar que lhes cabe. Se algo vale muito mais que custa, em termos de custo e remuneração do capital investido, atrairá empreendedores para sua produção, ajustando o eventual desajuste.

    Principalmente em economias que mantem o câmbio flutuando pelas forças de mercado, como no Brasil e nos USA, desajustes tentem a ser compensados ao logo dos anos. Assim, espera-se que o câmbio vá se ajustando com as diferenças de inflação desses países. “Commodities” por serem produtos sem grandes segredos de produção e facilmente globalizados são fatores que ajudam nessa compensação. Soja, petróleo, aço, minério de ferro são exemplos de “commodities”.

    Assim, se um país é mais inflacionário que o outro, espera-se que, com o tempo, haja uma desvalorização relativa da moeda do país com mais inflação em relação ao outro.

    Os governos não deveriam, mas podem interferir na forma com que alguns índices de inflação são calculados. Felizmente orgãos independentes atuam nesses países minimizando essa intervenção. Bens pouco intercambiáveis como prestação de serviços, por exemplo, podem ser desvalorizados em uma economia subdesenvolvida em relação à outra mais desenvolvida causando algum ruído à lógica do ajuste do câmbio pelas diferenças de inflação.

    Venho acompanhando faz algum tempo as várias moedas do Brasil em relação ao dólar e tentado analisar momentos de supervalorização de uma moeda em relação à outra e verificar se elas tendem a se ajustar com o passsar do tempo.

    Criei um tipo de algoritmo para esse fim que chamei de “paridade”.

    Montei três séries de dados com o mesmo tipo de análise.

    1. Análise de logo prazo com dados de 1965 até 2024
    2. Análise de logo prazo com dados de 1980 até 2024
    3. Análise de logo prazo com dados de 1995 até 2024

    Como inflação brasileira usei o IGP-DI em todas as análises e o IGP-DI e o IPCA para as análises a partir da criação do IPCA em 1979.  Usei essas duas inflações, pois elas têm sido relativamente distintas ao longo do tempo, sendo que o IPCA afeta mais o consumidor enquanto o IGP afeta mais a indústria. Para o USA usei o CPI (Consumer price index) publicado pelo “U.S. Labor Department’s Bureau of Labor Statistics”.

    Na modelagem calculei um índice a inflação brasileira em dólares (ajustada pela variação cambial) e a comparei com o índice da inflação americana. Num mundo ideal a relação entre esses dois índices devia dar “1”. Mas dependendo do período existe alguma distorção. Assim, graficamente, eu ajusto essa relação para dar 1 através de um fator de ajuste (deslocamento da curva). Chamei essa relação ajustada de “IPCA ou IGP based Parity BRL vs US$ Avg=1.00”. Isso faz com que eu aceite que na média do período analisado o câmbio seja “justo”, havendo períodos de supervalorização de uma ou outra moeda ao longo do tempo. As três análises não exigiram ajustes exagerados, tendo havido pouco deslocamento das curvas para que a média resultasse na unidade (chamo isto de paridade “justa”).

    Aqui seguem os gráficos da análise dos tempos mais recentes (1995 até hoje):

    Agora os resultados para o período intermediário (1980-hoje):

    E em seguida o período mais longo (1965 até hoje):

    Notamos que, mesmo nesse período muito longo, o deslocamento para a média continuar dando “1” não é muito grande. Isto é, existe uma paridade entre “Reais” e “Dólares” ao longo do tempo e hoje, em meados de 2025, estamos numa posição de câmbios bastante próximo ao justo ou ao que vem ocorrendo desde há muito tempo.

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  • Homem não escolhe

    Menina bonita, sem anel no seu dedo,

    Seu olhar maroto guarda um segredo.

    Deve me alegrar ou devo estar com medo?

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  • Adeus, Dona Cegonha (Crônica de Memórias de um paulsitano)

    Na década de 50, para as famílias italianas como a minha,  a gravidez era cercada de metáforas. Fulana está em estado interessante, cicrana está “esperando a cegonha” e até algumas mais estranhas como “fulana está puxando vagão”, como dizia minha tia com seu jeito meio maroto de dizer as coisas. Nem quero imaginar o porquê da expressão!

    A criançada acreditava em cegonha tempos depois de desacreditar em papai Noel. Lá pelos meus seis a sete anos, estava claro para mim que todas as mães que esperavam a cegonha tinham enormes barrigas. Assim, achava que o bebê devia estar lá dentro. Sabia que o bebê, eventualmente, sairia de lá de algum modo. De forma alguma viria pendurado em bico de cegonha. Afinal, cegonha era ave somente dos livros, imaginava. Por ali só havia alguns gaviões e urubus grandes o bastante para a empreitada. Não fazia a menor ideia de como o bebê tinha entrado nas barrigas, mas já achava que os maridos tinham algo a ver com aquilo. Talvez fosse alguma coisa que ocorria durante o beijo, ponderava. Mas esse tipo de coisa não se discutia com a criançada.

    Com tempo e com os cachorros da vizinhança o enigma foi resolvido. Muito antes, porém, havia uma vizinha que estava por dar a luz. Minha família e as de outros dois tios eram vizinhas. Frequentemente minha irmã mais nova e eu, brincávamos com uma prima da  minha idade. Para desespero das duas meninas, ao brincarmos de programas de auditório, eu me anunciava com a música “A Deusa do Asfalto”, gravada por Nelson Gonçalves. Eu cantava, a plenos pulmões, a primeira e segunda partes da música perante a angustiante impaciência das meninas. Num desses dias, no intervalo das músicas, minha prima comentou  que sua mãe havia dito que a cegonha iria trazer o bebê da vizinha.

    Sem qualquer malícia emendei dizendo que largasse mão de ser boba, claro que o bebê estava na barriga da moça, não via como estava gorda?

    Minha prima reagiu mal, mas deve ter pensado que o que eu havia dito fazia algum sentido. À noite contou à sua mãe. No dia seguinte as mulheres do clã me interrogaram se, de fato, tinha dito tal coisa. Confirmei e esperei a reação que não veio. Acho que perante o óbvio das minhas considerações ficaram sem argumentos.

    Naquele mesmo dia, a cegonha da família voou para outras paragens.

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  • Thriller da Vila Anastácio (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Domingo à tarde meu primo e eu seguíamos a pé do Piqueri à Avenida Raimundo Pereira de Magalhães. Esta rua era o início da Estrada Velha de Campinas, só que na outra margem do Rio Tiete, na Vila Anastácio. Eu tinha uns treze anos e meu primo dois anos mais.

    Subíamos a Pedro Cubas, atravessávamos a favela do Buraco Quente e descíamos para a várzea do Rio Tietê até a ponte da Estrada de Ferro que cruzava o rio.

    Para o pedestre, a ponte ferroviária era o caminho mais curto para alcançar os campos de futebol da Vila Anastácio, como o campo do Vaticano, mais próximo ao quartel e o campo do Nacional. Esses campos ficavam ao lado da oficina de trens.

    Atravessar a ponte ferroviária era a adrenalina dos anos 60. Outro primo, quando pequeno, atravessara com o pai quando um trem passou. Tiveram que refugiar-se  nos “salva vidas”, pequenas cestas que deixavam de um lado as enormes e ruidosas rodas de ferro do trem em movimento e do outro as águas correntes do rio Tietê. O menino ficou mudo por mais de um mês. Já na puberdade tive esta experiência e, confesso, foi apavorante.

    O campo do Nacional ficava em um grande parque repleto de eucaliptos, um lugar bem agradável para um passeio. Ao chegarmos, nos debruçamos nas grades brancas de madeira para assistir a uma partida que acontecia. Era um dia muito agradável, ensolarado e a sombra dos eucaliptos dava uma sensação de muita tranquilidade.

    Inesperadamente, talvez por um lance mais ríspido, alguns jogadores começaram uma briga. O tumulto foi aumentando e a torcida começou a se envolver. Em segundos tudo se transformou  em  uma cena de guerra: voadoras, pauladas, fratura exposta, gritos de raiva e de dor. Ficamos apavorados, éramos estranhos, sem amigos de quaisquer dos lados.

    A briga veio em nossa direção e, apavorado, eu queria correr. Meu primo, um pouco mais experiente, sugeriu que saíssemos devagar, passeando, como quem não quisesse nada. Ao atingirmos a avenida, saímos em disparada e só paramos do outro lado do rio.

    Aquele supostamente calmo passeio de domingo transformou-se num apavorante thriller da Vila Anastácio.   

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  • Além da imaginação (crônica de Memórias de um paulistano)

    No fim da década de sessentao fim da década de sessentamuitos assistiram à série que começava com  uma intrigante narrativa: “Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação.

    Mais que o tema, havia a inesquecível trilha sonora que fazia com que os pelos do braço se arrepiassem mesmo antes de qualquer história.

    As tramas contadas não eram histórias de terror e praticamente não traziam  efeitos especiais. Era a história, sempre intrigante, perto do real ou do possível, talvez prognóstica de futuro remoto, o que criava todo o clima da série.

    Há um capítulo em especial cujo título era “Um homem só (The lonely)” que jamais esqueci e que, imagino, possa ter inspirado romances e filmes como “Inteligência Artificial” ou “O Homem Bicentenário”.

    A história contava sobre um homem que é condenado a viver solitário em um planeta distante por muitos anos.  O homem somente escapa da loucura pela companhia de uma máquina (um robô) feminina, com toda a aparência e desempenho de uma mulher verdadeira. Esta lhe é deixada por compaixão. A princípio ela é rejeitada, mas,  com o tempo, o homem aprende a amá-la de verdade.

    O final, como sempre, é dramático e enigmático. Cumprida a pena vem o tempo do seu resgate. Mas ocorre um acidente e a nave fica com pouco combustível  para o retorno. Assim precisa ser aliviada de peso e o capitão define que a mulher robô tem que ser deixada no planeta. O condenado fica desesperado, mas com um tiro na cabeça da mulher robô ela começa a destruir-se. Então, com aparência de máquina, fica  repetindo o nome do homem que a amou, deixando a questão de se afinal a máquina sentiria o mesmo.

    A questão da autoconsciência é inevitavelmente levantada.

    Onde está o limite da consciência de si? Estará no ser humano, mesmo nos  Neandertais? E os primatas teriam autoconsciência? E os outros animais e seres vivos? Será possível repetir artificialmente as sinapses que definem o sentimento?

    Descartes apresenta um silogismo inclusivo, mas não restritivo em seu “Penso, logo existo”. Mas ao racionalizar a existência da autoconsciência,  da auto percepção, posso estendê-la com facilidade até outros seres humanos. Mas por que não até minha cachorrinha?

    Onde fazer o corte e por qual motivo?

    Talvez mesmo a máquina ao decodificar, responder, acumular informação possa dominar a linguagem e a comunicação. Se ela puder se socializar e tiver, na sua mecânica, coisa parecida com as relações neuronais que permitem o sentimento, o que faltaria para o seu autoconhecimento.

    Como vê, Além da Imaginação fazia mais que entreter, levava-nos a pensar, a expandir nossa mente. Também não nos deixava dormir direito nas  noites do seriado.

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  • Ressaca no costão da prainha (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Sempre adorei pescar.

    Antigamente, Peruíbe era ainda pouco habitada e oferecia bons pontos de pesca.

    Ainda perto da cidade, de cima da ponte do Rio Preto descíamos as armadilhas de siri. Subiam quase sempre com 2 ou 3 patolas de garras arroxeadas. Nas pedras que cercavam suas margens pegávamos ximburés, acaratingas e alguns robalinhos. Escutava histórias de robalos gigantes que teriam sido pegos naquele mesmo trecho de rio. Vez ou outra surgiam enguias presas no anzol, enroladas na linha.

    Cruzada a ponte do rio Preto, uma pequena estrada de areia seguia rumo às montanhas que encerram a praia grande e as praias da cidade. Não muito longe havia uma pequena enseada junto a um costão que lhe dava o nome, Praia do Costão. De lá, uma estradinha de terra rompia o morro. Cerca de meio quilómetro depois levava a uma praia formada numa pequena baia. Dos dois lados pontões de rocha adentravam o mar. No lado sul da pequena baia, no alto das pedras, encravada na montanha, ficava uma construção tão imponente quanto sinistra, a “Mansão da Solidão”. Nunca vi lá sinal de vida, mas havia um barquinho flutuando dentro de uma espécie de gruta que parecia servir de doca, porão ou calabouço à misteriosa construção.

    A seguir, a estradinha atravessava o morro todo e chagava a uma vasta várzea. Era o estuário do rio Guaraú. Na descida para a baixada havia várias picadas mata adentro que levavam a costões bem piscosos e praias desertas.

    O Rio Guaraú podia ser atravessado numa canoa pública ou mesmo a pé pelo estuário, com água até os joelho na maré baixa.

    Do outro lado do rio havia uma praia quase intocada, toda cercada de montanhas e cobertas por mata atlântica, onde, pela manhã, ouviam-se os ecos do canto do pixoxó metralha, amplificados pela geografia do local.

    Atravessada a praia, seguia-se pela montanha, através de picadas que levavam a pontos de pesca abundante, como a Pedra Santa e a Ponta da Baleia, além do rancho do Severino. Neste, de acesso bem difícil, nunca pesquei. Em todos esses pontos pescavam-se garoupas, sargos, muitas corcorocas e outros peixes de recifes. Havia outros caminhos a seguir, nos quais não nos aventurávamos com receio de ficarmos perdidos no labirinto de trilhas da mata.

    Companheiro frequente dessas pescarias era meu cunhado, dois anos mais novo. Voltávamos sempre à tardezinha, pouco antes do sol se por, com muitos, alguns ou nenhum peixe. A isca era sempre camarão fresco seco no sal e algumas sardinhas para peixe maior.

    As aventuras nessas trilhas e rochas são inúmeras, com tombos, bons peixes e muito medo de cobras.

    Por coincidência ou não, os dois maiores sustos dessas aventuras aconteceram no lado externo da alta rocha que seguia mar adentro, em continuação à sinistra Mansão da Solidão.

    Na primeira ocasião eu devia ter uns treze a quatorze anos e estava acompanhado de um primo de terceiro grau. Pescava descalço sob o sol do meio dia quando o anzol enroscou nuns mariscos na beirada do rochedo. O local parecia seguro e seco, longe da arrebentação, embora fosse próximo à descida abrupta do rochedo.

    Lembro-me de que havia algo como uma renda verde escura, aparentemente seca pelo sol forte. Mal apoiei naquilo e meus pés deslizaram como se tivessem pisado em graxa pura. Virei o corpo no ar e dei de queixo na rocha. Deslizei pela encosta. Minhas unhas gastaram até a metade na tentativa de frear a descida.

    Lembro-me de ver o mar, com suas ondas quebrando no recife aproximando-se rapidamente durante a descida. Tive tempo, nos décimos de segundos que tudo durou, de planejar não só como eu mergulharia, mas como faria para me afastar do recife, evitando que as ondas me arremessassem contra as pedras. Também planejei que teria que ter fôlego até contornar a ponta da pequena península, depois poderia usar as ondas para seguir surfando até a praia do outro lado, o lado da prainha.

    Naquele dia a sorte seguiu o descuido. Como se fosse obra de um anjo da guarda surgiu um corte no rochedo pouco antes da água. Como um pequeno degrau, interrompeu minha descida. Nunca consegui encontrá-lo novamente. Claro que nunca mais tentei chegar tão perto da borda do recife. Também nunca mais fiz pescarias nas rochas sem alpargatas de corda.

    Saí dali içado pela corda de uns nisseis que também estavam pescando e presenciaram o incidente. Outra obra da providência?

    O segundo susto ocorreu anos mais tarde. Voltei a pescar naquele rochedo na companhia do meu futuro cunhado. Era julho e o mar estava de ressaca. Da prainha víamos espirros da onda mesmo do outro lado do morro. Já que tínhamos ido até lá, apesar do mar assustador, resolvemos tentar lançar umas linhas na água. Subimos na rocha das mais altas e fizemos os arremessos com chumbada pesada. Atrás da rocha onde estávamos, subia outra ainda mais alta formando algo como as costas e o tampo de um banco curvo. Estava lá, ocupado em ajeitar a mochila e o isopor com as iscas, quando ouvi meu parceiro de pesca gritando e correndo para o outro lado do penhasco: – Esta vem!

    “Esta” era uma onda gigantesca que, quando vi, só tive tempo de me enroscar entre as  pedras forçando minhas costas na parede e meus pés no chão, formando uma cunha entre as rochas para tentar evitar ser levado de lá de cima. Desta vez não haveria qualquer plano para escapar daquele mar revolto. A onda bateu no meu corpo como se fosse uma bofetada de Posseidon, encharcando-me e deixando meus braços, pernas e rosto vermelhos da pancada. Todo nosso equipamento, menos a varas de molinete que tinha nas mãos, foi levado pela onda, um mini-tsunami. Felizmente eu permaneci firme, encaixado entre as rochas. Saí de lá como um louco, antes que outra onda gigantesca acontecesse.

    Hoje me lembro desses sustos, na verdade riscos de vida que ocorreram nessas aventuras e que se tornaram histórias. Histórias que, por pura sorte, hoje posso contar.

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  • Paulão, advogado, professor, grande figura! (Crônica de Memórias de um paulistano)

    Na década de 60, professor Paulo era um gordo e inteligente advogado criminalista. O intrigante é que era também um estranho professor de artes do Jácomo Stávale, na Freguesia do Ó.

    Professor Paulão ou simplesmente Paulão, como o chamávamos carinhosamente, tinha estatura mediana e devia pesar uns 120 quilos. Surpreendeu-nos, entretanto, quando atuando como goleiro de futebol de salão num jogo entre pais e mestres, foi o responsável pela vitória dos professores. Entre outras, fez uma defesa de extrema habilidade, segurando com as mãos nas costas uma bola alta que deixou passar sobre sua cabeça. Acho que foi mais espetacular que a defesa escorpião do famoso El Loco Higuita, da seleção colombiana.

    Numa das primeiras aulas, impressionou os alunos com uma de suas atuações com o advogado. Se real ou imaginária, própria ou “emprestada”, eu nunca tive certeza.

    Tratava-se de um crime horrendo no qual um açougueiro matara um jovem a facadas, em frente ao açougue. Suposta ou realmente, Paulo teria sido o advogado desse açougueiro.

    Contou-nos que o promotor usou toda sua habilidade e emoção dos jurados e demais presentes ao julgamento. Com frequência, mostrava o avental do açougueiro banhado de sangue, com o que conseguia interjeições de horror dos presentes. Fez isto durante toda a acusação.

    Passada a palavra ao Dr. Paulo, ele aguardou vários minutos como que procurando alguma linha de raciocínio, para só então iniciar:

    “Prezadíssimos jurados! Competentíssimo colega promotor, que tão bem apresentou seu argumento! Vossa Excelência, honradíssimo e meritíssimo Juiz…” E parou de falar, pensativo durante vários minutos. Então reiniciou.

    “Respeitabilíssimos jurados! Honorável promotor de clareza e oração exemplares!  Excelentíssimo Juiz que sempre julgou com sabedoria e eloquência!” Interrompeu novamente por vários minutos. Reiniciou as mesmas tratativas por pelo mais cinco vezes, com os mesmos intervalos.

    Terminada a sétima introdução, o Juiz perdeu completamente a paciência e reprimiu veementemente o professor Paulão, com a voz totalmente alterada, quase aos gritos:

     “Ora, o que é que o advogado está pensando! Acha que estamos aqui para perder tempo! Pois devia ter se preparado para apresentar seu argumento ou calar a boca de uma vez!”

    Satisfeito com a reação, Paulo retrucou:

    “Pois Vossa Excelência há de entender! Passei eu aqui pouco mais de meia hora a elogiar repetidamente o nobre juiz, um homem culto e preparado. E Vossa Excelência perdeu a paciência com minhas repetições!”

    “Imagine esse açougueiro, homem rude e iletrado, ouvindo dia após dia, por meses a fio, a vítima a aviltá-lo, dizendo que sua mulher era uma vadia! Que dormia com qualquer um!”

    “Por dias e dias o pobre açougueiro ficou calado, fazendo seu trabalho.”

    “Mas depois de tantas e repetidas difamações, o homem simples perdeu a paciência e, perante forte emoção, usou o que tinha nas mãos para calar seu agressor!”

    Segundo o professor Paulo, comprovados os fatos, o açougueiro teria sido inocentado.

    Professor de artes, Paulão surpreendeu-nos na sua primeira aula, quando, para espanto dos alunos, pediu que escrevêssemos uma redação sobre um tema sugerido. Leu-as todas durante a aula e, num determinado momento, chamou-me e pediu que me levantasse. Em seguida rasgou-se em elogios, dizendo que eu escrevia bem e que escrever era extremamente importante para a vida.

    Nunca fui muito caprichoso para trabalhos manuais. Até que tinha talento para desenhar, mas, como ao excelentíssimo juiz,  faltava-me a paciência necessária ao artesão. Assim, creio, foi minha redação, no primeiro dia de aula que garantiu ótimas notas de artes durante todo o curso!

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