WAGNER RODRIGUES POETA E CRONISTA

TEXTOS ORIGINAIS E PUBLICADOS NOS LIVROS DO AUTOR

  • Poema do que não vivi (Poema de Bátrakhos)

    Se ao menos soubesse

    Da falta pra mim,

    Talvez eu devesse

    Ter dito que sim.

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  • Curiosidade (Poema de Bolhas de Sabão)

    Não sei do que sou feito.

    Feito sou, claro que sou.

    Apareci feito eu mesmo…

    Mas o que foi que me moldou?

    Houve um Deus fazendo planos

    De brincar com minha vontade

    Ou não o fez e um acidente

    Fez de mim essa entidade?

    Sei que sou, mas não conheço

    O que sou bem de verdade,

    Neste monte de partículas

    Estranho haver curiosidade.

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  • As meninas (Poema de Bolhas de sabão)

    Quando Deus as inventou

    Estava meio distraído.

    Viram como ficou?

    De deixar-nos aturdidos!

    Claro que estava inspirado,

    Pois lindinhas as tornou,

    Mas, difíceis de entender,

    Foi aí que escorregou!

    Nunca se sabe o que querem,

    Pois, quando dizem assim,

    Na verdade, elas pretendem

    Que entendamos, por fim,

    O que de fato elas querem

    Sem que o digam! Ai de mim!

    É melhor nos conformarmos

    Pois em nós também errou.

    Dependentes muito delas

    Foi assim que nos montou!

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  • Os dois lados da fé (Crônica original)

    Uma amiga do grupo de engenheiros do Mackenzie compartilhou um vídeo sobre a Irmandade da Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores.

    Esta pequena igreja é curiosa por não pertencer a nenhuma Arquidiocese católica. Trata-se de uma igreja particular que pertence aos descendentes de seus fundadores em 1750. Esses fundadores foram mercadores e comerciantes que se reuniam quase todas as noites num oratório na região, na esquina da Rua do Ouvidor com a Rua Arco do Teles, na cidade do Rio de Janeiro, a menos de um quilómetro do Aeroporto Santos Dumont.

    Curiosamente e até por não pertencer à Arquidiocese do Rio de Janeiro, a pequena igreja pode manter a tradição de ter missas solenes todo sábado e domingo ao meio-dia, proferida em latim. Ricamente ornamentada com madeira nobre trabalhada, pratarias religiosas de todo tipo e alfaias antigas.

    O meu lado mais cético tende a analisar essa irmandade e o lugar de culto com a razão. Razão é quase o antônimo de fé. Para esse lado racional fé é um embuste, uma trampa usada para o engano e subserviência dos crentes para fins negativos. Como pensador racional e estudante da ciência, fé me parece uma forma de afastar o homem da verdade, do conhecimento. A figura da fruta do conhecimento do bem e do mal sempre me pareceu uma trapaça de um Deus egoísta e ciumento, não da serpente ou do diabo que ela representaria. A obediência que abdica do saber não me parece enaltecer ao homem. Como seria um Criador que daria inteligência, consciência da existência e até domínio sobre todos os seres viventes, mas que negasse a necessidade indisputável de aprender?

    A fé neste contesto é o oposto do bom e do correto.

    Mas eu seria um mentiroso se negasse o efeito que essas arquiteturas sacras têm sobre mesmo um cético como eu. Então como poderia negar o impacto que podem ter sobre aqueles que não querem ponderar sobre o sentimento e querem apenas mergulharem na hipnose que esses locais têm no conforto do místico e do transcendental.

    Entrar numa catedral gótica, montada para despertar sensações do divino e ouvir órgãos com músicas sacras ou apresentado gravações do coral “The MormonTabernacle” provoca sensações intensas. Carrega o ouvinte a um estado de hipnose que atua de forma indiscutível na mente humana. Despertam talvez o que Jung chamou de inconsciente coletivo àqueles expostos a esse clima. É como se entrássemos num outro universo que não o da realidade.

    Por que negar ao crente esse tipo de fé? Por que negar a satisfação que lá pode ser vivenciada? Este tipo de fé não é a fé para enganar, mas para, talvez, deixar-se enganar e poder viver esse transe prazeroso e surreal. Boa missa em latim à Irmandade. Aproveitem essa agradável droga transcendental nos seus sentidos!

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  • HEFESTO E OS TRABALHADORES (Crônica de Deuses no divã)

    Como vocês devem saber, apesar de deus, minha vida nunca foi fácil. Não deveria ser assim, afinal meu pai é Zeus e minha mãe Hera. Foi aí que começaram meus problemas. Não tenho certeza se minha mãe teve alguma outra relação fora do casamento, coisa muito comum no Olimpo. Eu, Hefesto, nasci feio de dar dó. Tão feio, mas tão feio, que ao me ver pela primeira vez, Hera levou um susto tão grande que me atirou do Olimpo, num impulso. Uma queda e tanto, hão de convir. Acabei por me esborrachar em Atenas. Não fosse eu também um deus e já Hera! – essa foi boa, não foi?

    Muito bem, não morri na queda, mas fiquei aleijado. Sim, sou um deus horroroso e coxo!

    Em Atenas, mesmo deus, a coisa não foi fácil. Para agradar o povão acabei adotando ser o deus do trabalho, dos artesãos, dos escultores e da metalurgia. Isso mesmo, fui um dos primeiros metalúrgicos da história. Deveria ser o ídolo dos Partidos dos Trabalhadores. O uso de barba dos integrantes desses partidos, vem, creio eu, do meu costume de sempre ter a barba por fazer. Feio do jeito que sou, fazer a barba para quê?

    Em Atenas a metalurgia era coisa séria. Para começar, era preciso lidar com fogo. Fogo de verdade, não fogo de bebedeira como acabou por acontecer nos dias modernos com meus seguidores. Em Roma me chamavam de Vulcano, lembrando as larvas fumegantes.

    Metalurgia era a base da produção de espadas, escudos e outros artefatos de guerra. Marte, Atena, Ares, Odin e até Ogum eram clientes contumazes. Assim domei o bronze, o ferro e inventei o aço. Forjei até pregos, daqueles usados na crucificação de Jesus. Disso não me orgulho, mas foi para a história.

    Trabalho era coisa séria e penosa. Não havia sindicatos nem coisa parecida. Nada de CUT ou PT. Eu, um deus, não era visto em comícios ou manifestos. Eu sempre trabalhei e dei exemplo, com minha ação.

    Hoje, confesso, estou envergonhado com o que estão fazendo com minha imagem. Justo eu, nascido feio a ponto de minha mãe ter me jogado do Olimpo, estar preocupado com o que estão fazendo com minha imagem? Entretanto estou, e muito! Pois minha feiura sempre foi uma feiura na aparência, nunca na conduta. O que estão fazendo comigo é corromper minha própria alma.

    Vagabundos do mundo atual! Eu os vomito da minha garganta marcada das queimaduras do fogo e manchada da fuligem que respiro.  

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  • Soneto à Raquel 2015 (Soneto de Bátrakhos)

    Jacó moderno!

    Perdeu o manto, está usando terno…

    E Raquel é tão Jacó, quanto Jacó é Raquel!

    Labão conservou a usura,

    Tem a sede em Singapura,

    Empresa multinacional.

    Já o pastor, sem seu cajado,

    De sete em sete, o coitado,

    Pasta a si na grande empresa,

    Com a papelada na mesa.

    Sete e sete são catorze,

    Com mais sete, vinte e um,

    De tantos anos servidos Se acaba vivendo nenhum.

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  • LUAR (Poemeto de No limite da consciência)

    Luar é Luna, branca e macia.

    Luna vestida de rendas de nuvens

    Sob as silhuetas da noite vazia.

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  • 666 (Poema de No limite da consciência)

    João, do apocalipse, não escreveu chapadão

    Como podem pensar alguns ao lerem seus escritos.

    O décimo terceiro capítulo é sim o mais discutido,

    Pois traz o cabalístico número por ele bem definido.

    Política naqueles tempos era coisa complicada.

    Nero não era sujeito que aceitava com brandura

    Censuras a seu governo, tratando-as com lisura.

    Era, sim, bem violento, quando era criticado!

    Contrariado, ateava fogo em qualquer pobre coitado.

    João usou sua astúcia ao pôr letras no papel,

    Usou muitas figuras, mesmo assim foi bem fiel

    Na charada que propôs no hebraico em que escrevia.

    Cesar Nero era vil tirano, mas escasso em sabedoria

    Para descobrir que era ele a besta da profecia.


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  • João e o Apocalipse (Crônica de Deuses no divã)

    Endoidou, esse João! Devo ter posto muita pressão nele ou ele deve ter fumado alguma coisa antes de escrever.

    Referindo-se às sete igrejas da Ásia, começou a me descrever como se eu fosse um híbrido psicodélico de dragão com ovelha!

    “E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo;
    E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas.
    E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.
    E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último
    ; Apocalipse 1:14-17”

    Assustador! Isso denigre minha imagem de Deus pai. Em seguida, João me comparou a sete raios, talvez me confundindo com aquele falsário do Zeus. Transformou minha trindade em sete espíritos. Fez as contas, três vezes sete, vinte e um e somando eu mesmo que sou três obteve vinte quatro. Assim colocou à minha frente 24 reis velhos. Reis sei lá de quê!

    “E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro.
    E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus.
    Apocalipse 4:4,5”

    Continuou com sua matemática louca do 24. Inventou uns tais de 4 animais olhudos com seis asas: de quatro vezes seis, vinte e quatro:

    “E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás.
    E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando.
    E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir
    . Apocalipse 4:6-8”

    Me digam? Isso não é coisa de quem exagerou no LSD? Nem nos tempos dos Beatles ouvi algo semelhante. Foi quando perdeu totalmente a noção e inventou uma quantidade tão grande de anjos que nem mesmo eu entendi o que ele quis dizer:

    “E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais, e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões, e milhares de milhares, Apocalipse 5:11”

    Seguindo nesta toada dos vinte quatro, voltou a falar de quatro cavalos coloridos, branco, vermelho, preto e amarelo, obviamente se referindo às raças humanas que eu criei. Assim acho eu! Em seguida, foi politicamente incorreto, colocando uma coroa de rei na cabeça dos brancos, mandou os índios se matarem uns aos outros, ao preto trabalhar numa lojinha, enquanto aos asiáticos mandou que matassem um quarto da humanidade com guerra biológica, agente laranja ou morticínios em arenas, como aconteceria em Roma.

    “E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.
    E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê.
    E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.
    E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer o terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança em sua mão.
    E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.
    E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê.
    E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra
    . Apocalipse 6:2-8”

    Assustador, não é?

    Continuou com a matemática chapadona. Disse que comeu um livrinho que um anjo trouxe, prometendo fogo, enxofre, gafanhotos, mulher grávida com asas de águia, dragão com sete chifres, bichos esquisitos e coisa assim:

    “E a voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.
    E fui ao anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele disse-me: Toma-o, e come-o, e ele fará amargo o teu ventre, mas na tua boca será doce como mel.
    E tomei o livrinho da mão do anjo, e comi-o; e na minha boca era doce como mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo
    . Apocalipse 10:8-10”

    “E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia.
    E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder, e o seu trono, e grande poderio.
    E vi uma das suas cabeças como ferida de morte, e a sua chaga mortal foi curada; e toda a terra se maravilhou após a besta
    . Apocalipse 13:1-3”

    Depois disso ele promete que eu soltaria Lúcifer da prisão. Eu nem sabia que o havia prendido! Finalmente ele promete uma guerra entre Lúcifer e sua turma contra mim e meus anjos. Será possível que o Lúcifer, sabendo o que iria acontecer, se atreveria a isso! Pior, prometeu que eu jogaria os derrotados num lago de fogo e enxofre para toda a eternidade. Coisa indigna para qualquer criador onisciente, hão de convir!

    O grande problema é que João foi nomeado por mim como profeta. Já havia escrito vários artigos, todos com minha aprovação. O que posso fazer agora? As palavras de meus profetas acabam sendo minhas palavras. De fato, há muito que não converso diretamente com ninguém. No máximo apareço em sonhos ou coisa assim.

    Portanto, se meu profeta falou, falei eu. E minha palavra é lei. Não vai ter jeito. Sinto muito, mas no final vou ter que botar para quebrar!

    Palavra de Deus!

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  • MADRUGADA (Poema de No limite da consciência)

    Acordei de madrugada

    Brigando com meus pensamentos.

    Se fico os pensamentos devoram, levanto e os acalento.

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