
Tarso Evangelista é um dos homens mais íntegros que conheci. Hoje tem pouco mais de 60 anos. Agora aposentado de seu trabalho na área financeira passou a fazer aquilo que sempre gostou. Pesca esportiva, jogar tênis e escrever. Tarso sempre quis escrever, mas ou lhe faltava mais talento ou indicação para que vivesse como escritor. Ao menos ele se diverte com sua produção singela.
Disse que Tarso é um homem íntegro e devo explicar. Integridade não é mérito, que esteja claro. Integridade deveria ser obrigação de cada um de nós. Infelizmente algo tão necessário e tão óbvio não é tão abundante como deveria, então, receber tal qualificação pode parecer elogio.
Sabemos também que integridade não é algo absoluto. Um parente não tão próximo, pequeno industrial do interior, qualificava-se como íntegro porque, ao contrário de outros colegas de atividade que sonegavam todos os impostos, ele procurava despachar seus produtos com cinquenta por cento dos volumes declarados nas notas fiscais. Recolhia, assim, metade dos impostos de ICMS e IPI devidos. Esclarecia que precisávamos pagar impostos para que investimentos públicos fossem realizados. Era, dessa forma relativa, que descrevia sua probidade.
Tarso sempre foi severo com sua integridade. Não por ser religioso ou para buscar reconhecimento de alguém, afinal nunca o vi buscando aprovação ou reconhecimento e, como muito interessado em ciência, não conseguia estar ligado a nenhum tipo de filosofia religiosa.
Apenas para dar um exemplo da graduação da integridade de Tarso, ele sempre se ofendia quando a secretária do seu médico perguntava se a nota fiscal da consulta de seu filho era para fazer em nome do filho ou dele Tarso, que pagava a conta. Ele se irritava e assegurava que não pretendia corrigir a lei fiscal com artimanhas. “Não posso incluir nas minhas deduções de imposto de renda algo que não gastei comigo mesmo.” E repetia a atitude em quase toda sua vida.
Por que estou falando com vocês sobre esse meu amigo? Deixe mostrar-lhes a seguir.
Tudo começou com uma das pouquíssimas vezes em que Tarso cedeu a seu costumeiro rigor.
Há alguns anos Tarso tinha sua mãe ainda viva, com boa saúde, vivendo na casa que orgulhosamente havia ajudado o falecido marido a construir. A casa tinha sua cara, com sua forma de viver e com o jeito do que imaginara ser um lar. Mulher do lar como suas amigas, orgulhava-se de como mantinha tudo muito limpo e muito lindo dentro daquilo que conhecia.
Entretanto a velhice chegara e, então viúva, carecia de ajuda, pois sair daquela casa para viver com algum dos filhos lhe era totalmente inaceitável.
A solução foi encontrar algum profissional. Então, esquecendo o cinismo de gênero que nos cobram hoje em dia, Tarso foi procurar uma cuidadora que ajudasse na casa da mãe e lhe fizesse companhia. Uma mulher seria melhor aceita pela idosa, imaginou Tarso.
Felizmente, isso pensava Tarso, havia uma pessoa que já cuidara de outros pessoas fora e dentro da própria família. Uma pessoa em quem Tarso acreditava poder confiar e se sentir seguro para deixar com sua mãe.
Tratava-se de Evelina Santos Pereira. Diarista de relativo empenho, com boa proza, alguma escolaridade básica, boa aparência, descendência ibérica bem parecida em forma e estilo com a mãe de Tarso.
Evelina, desquitada e com filhos com vida não resolvida, precisava trabalhar para viver. Não era jovem, mas não era velha. Na verdade, já havia passado do meio século e parecia ideal para acompanhar esse final de vida da mãe mais idosa.
Combinado o salário desejado para as oito horas diárias ela começou sua atividade e, vencida a resistência da velha senhora em ter uma desconhecida em casa, a mãe de Tarso começou a ficar bem satisfeita com a companhia e com o alívio nas tarefas diárias. Obviamente tudo foi feito dentro da lei das domésticas, com carteira assinada, registro no e-social, como seria de esperar que fizesse Tarso Evangelista.
Dona Evelina também estava muito feliz. Desquitada e solitária, agora tinha companhia. O trabalho era leve, pois havia uma diarista que fazia a limpeza mais pesada da casa. A diarista vinha duas vezes por semana. Então, para Evelina ficava o mais simples e mais leve. Ao chegar tomava café sossegadamente com a mãe de Tarso, mais tarde fazia ou esquentava o almoço, lavava a louça, batia o papo da tarde e assistia missa na TV que ambas adoravam. Era ideal para Dono Evelina ‘brincar’ no celular, com gostava. A pedido de Tarso, também verificava que a velha senhora tomasse os medicamentos nos horários.
Pouco mais de um mês depois do início do trabalho, a cuidadora procurou Tarso com uma proposta. Foi aí que o embrolho começou.
“Sabe, Seu Tarso, eu gosto muito da Dona Eloá. Ela também me adora. À noite, quando eu vou para casa fico muito preocupada dela dormir sozinha. Sabe, ela pode sentir alguma coisa e até o senhor chegar pode acontecer alguma coisa.”
“Minha filha também foi despejada e ela foi morar no meu apartamentinho. Estou muito contente com a companhia da minha filha e do meu neto. Todos lá no meu apartamento sobre a venda do Seu Manoel.”
“Mas eu pensei que eu podia vir dormir aqui com a Dona Eloá. Assim eu faço o jantar, faço companhia para ela à noite e fico mais sossegada.”
“Também não tenho que gastar duas horas para vir de casa e outras duas horas para voltar. Sabe a cidade está muito perigosa e eu tenho que trocar de condução e andar à noite lá no bairro. É muito perigoso e aí a Dona Eloá pode ficar sem cuidadora de novo.”
“Então… O senhor me disse que além do meu salário o senhor gasta um monte com as taxas do governo, não foi? Eu já tô aposentada, nem preciso mais desse negócio de pagar para aposentadoria. Aí, eu pensei que se o senhor me pagasse um outro tanto de hora extra eu dormia aqui. Ficava até em algum fim de semana e minha filha…”
“Esses vinte porcento que o senhor paga pro governo, não paga não. Não precisa, já estou aposentada. O senhor me paga um pouco mais pelas horas e pronto. A Dona Eloá fica contente, eu fico contente e o senhor pode ficar supertranquilo que sua mãe vai ficar muito bem cuidada.”
Tarso imaginou que, talvez, Dona Evelina tivesse razão. Sua mãe estaria bem segura e teria companhia. E não registrar essa parte das horas extras realmente permitiria dar um bom acréscimo à cuidadora sem afetar demais suas finanças. Afinal Dona Evelina era conhecida na família fazia umas duas décadas. Até já dormira na casa de uma idosa terminal. Entendia que era de total confiança.
Foi assim que Tarso distensionou um pouco seu critério de integridade, claro que não tanto quanto fez meu parente empresário com o ICMS. Mas cedeu ao bom sendo de Evelina.
Tarso pouco mais que dobrou o pagamento a Dona Evelina com o novo esquema de trabalho. Era ‘justo’ pois ele não pagava os pouco mais de vinte porcento de e-social relativo às horas extras. Dona Eloá estava feliz com a companhia e Dona Evelina, esta exultante com a nova moradia ‘tão próxima do seu trabalho’ e com o ‘bom’ dinheiro a mais que estava recebendo. Casa e comida todos os dias, sem preocupação com os cansativos deslocamentos e sem o neto enchendo o saco no apartamento minúsculo de periferia.
Seis anos de felicidade geral se passaram e as páginas do Facebook e Instagram registravam a feliz convivência. Dona Evelina e a família ficaram íntimos de Dona Eloá e as visitas frequentes ocorriam mais de uma vez por semana. Netos e filhas frequentemente faziam suas refeições com as duas senhoras. Comemoravam as festas usuais por conta da Dona Eloá. Eram carinhosos e amados na residência e retribuíam o carinho.
“Hoje é dia da cuidadora! Eu adoro minha profissão. Parabéns a todas as cuidadoras!” Evelina registrava nas suas páginas eletrônicas.
Assim foi até o dia em que o coração de Dona Eloá resolveu que já havia feito seu trabalho.
Então as máscaras foram caindo rapidamente.
Como era de se esperar, Tarso pediu para a empresa de contabilidade calculasse o que devia no encerramento do emprego de Dona Evelina, pagando o que lhe era devido até com uma pequena gratificação.
Evelina queria porque queria uma tal de indenização por tempo de serviço que lembrava que seu avô recebera um dia. Tarso explicou-lhe que agora isso fora substituído pelo ‘fundo de garantia’ que ela poderia retirar agora com o governo.
Inconformada e sem avisar, Evelina procurou o sindicato das empregadas apenas duas semanas após a morte de Dona Eloá. Na porta da cadeia, quero dizer, do sindicato, encontrou o Dr. Careca, apelido anatômico do advogado bem safado que ficava à espreita de empregados reclamantes para tentar uma brecha para atacar patrões incautos. Dr. Russo de Orleans e Bragança entrevistou Evelina e logo percebeu a oportunidade. As horas extras não registradas iriam virar salário fora do e-social! O salário agora quase triplicado iria requisitar horas extras atrasadas por vinte e quatro horas de ‘escravidão’ acrescentados de fins de semana e feriados eventualmente não pagos. Em sua esperteza e experiência usou o processo ‘modelo’, definindo um caso trabalhista milionário para a assalariada que ganhava pouco mais de dois mil reais mensais antes das fatídicas horas extras concordadas. Apenas trocou nomes e valores e protocolou a demanda.
Ou seja, mesmo tendo pagado integral e generosamente todas as horas extras de ‘sossego’ e convivência de Dona Evelina, com comida e total liberdade de toda a família na casa de Dona Eloá, um processo trabalhista contra o empregador foi instaurado, reclamando tudo de novo, só que mais que triplicado.
Encerramos assim a descrição e consequências nefastas do descuido de integridade do Senhor Tarso. Assim seguiu um sofrimento que culminou em fechar um acordo por exaustão e tristeza.
Já no ramo dos outros personagens do processo trabalhista, parece que ninguém tem qualquer ‘escrúpulo’ com integridade.
O advogado de porta de sindicato já dera tantos golpes que nem precisa escrever o processo. Apenas mudava nomes e alguns valores e já estava pronto para protocolo no devido fórum. A partir da sedução inicial, garante uma taxa de sucesso exorbitante. Ora se a empregada irá receber um milhão de reais depois de receber de salário base pouco de cem mil reais durante seis anos de trabalho, que custa pagar uns trezentos mil para o Dr. Careca.
Ao longo do tempo, quando a representada percebe que o milhão se reduz para cem mil reais, mesmo baseado na mentira compartilhada, trinta porcento começa a parecer muito dinheiro para a divisão.
Nesse momento Dr. Careca começa com as ameaças. Mesmo as mentirosas. “Se desistir e fizer um acordo com seu patrão, o juiz irá te cobrar quarenta e cinco mil reais do processo.”
Dona Evelina se assusta e permanece nas garras do Safadão.
O pobre do meu amigo Tarso nem pode se defender sem a presença de um advogado. Acabou optando por um que conhecia o esquema trabalhista, por já ter processado dezenas de incautos empregadores domésticos. Outro abutre com asas abertas.
Tanto conhecia o esquema que tentou ver se colava uns cinco por cento do que conseguisse reduzir do processo de um milhão.
Entretanto, meu amigo Tarso é um homem culto e com boa formação financeira, foi alto executivo, caiu na arapuca sim, mas começou a se informar sobre o assunto, afinal a santíssima Inteligência Artificial sabe coisas de todo tipo. Conseguiu perceber e sustar a tentativa de golpe do seu defensor ilibado. Concordam com os cinco por cento, mas não a partir de um milhão. O ponto de partida foi um valor que fizesse algum sentido econômico, mesmo com as mentiras inventadas pela ‘coitadinha’ amiga da família, Dona Evelina.
Fez uns cálculos e definiu parâmetros em casos de o juiz acreditar mais ou menos em cada mentira inventada. O ponto de partida da tal redução de sentença ficou em cerca de pouco acima dos duzentos mil reais.
E o juiz trabalhista?
Aí não há o que a AI, desculpem o jogo de palavras, possa fazer!
Juiz tem o tal do livre arbítrio e vive nesse esquema de distribuição social.
Sabe qual é costume e quais as jogadas de cada lado. Principalmente sabe que os abutres querem um pouco de ‘carniça’. Sabe, perfeitamente, que os empregadores domésticos não conhecem e não se previnem dessas armadilhas. Tem suas crenças e ideologias. A balança da justiça não vem com partos iguais. Ao longo da convivência entre o empregador e a empregada cria elementos de confiança e jogo de sutilezas.
Quando se está contente com o desempenho, em função da necessidade, há o jogo de pedir e deixar, exigir e não ofender. Quase nunca se acha necessário exigir a assinatura da folha de ponto. E mesmo se houver tal folha, dependendo do que acreditar o juiz, mesmo que o funcionário ou funcionária assine a tal cuja, ela poderá alegar que teria sido induzida a fazê-lo ou não receberia o salário. O Juíz decidirá o que lhe vier à cachola e pronto.
A escrita da lei é o que é e o jeito de lidar com esse jogo é o que eles fazem faz tempo.
A lógica, o salário real de mercado nada disso conta.
Óbvio que tudo pode ir sendo levado com a barriga por anos e ver quem se cansa primeiro ou que o custo do sossego vale mais que umas caixas de um bom vinho.
No final das contas, o que vale é o cheque no fim do caso, para um lado e para o outro. Dane-se o senhor Tarso. Afinal, se ele não registrou as horas extras no e-social, não importa quem teve a ideia, deve ser penalizado de forma exemplar.
Dona Evelina mentiu descaradamente, o Dr. Orleans e Bragança todos sabem há quanto tempo comete safadezas, seu caríssimo representante ajuda a que o processo seja expedito e chegue o dia do seu cheque, assim todos, todos menos o meu amigo Tarso, se locupletaram com a fatalidade, desconhecimento ou imprudência.
Sim, meu amigo Tarso Evangelista é um dos homens mais íntegros que eu conheço, mas esse mundo da tal justiça trabalhista não premia a integridade. Nem ao menos se preocupa com ela. Nesse mundo ganham a mentirosa, o safado do sindicato e o advogado oportunista que defendeu ao meu querido amigo.

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