
O atual presidente é um pouco parecido com Don Quixote. Não pelo lado romântico e singelo do herói de Cervantes, mas pelas lutas contra moinhos de vento. É quase cômica, não fosse tão perigosa, sua desavença contra as forças da economia.
Macroeconomia – entre as supostas ciências exatas – é menos exata do que se imagina.
Macroeconomia é comportamento coletivo. Dos empresários, dos investidores, do povo em geral. Como na medicina, decorre do experimento e resultados. Existem fatores matemáticos, modelos, gráficos e um monte de análises de todo tipo.
Um dos meus professores na FGV explicava esses fatores da seguinte forma. Dizia que se um líder de credibilidade declarasse que iria faltar papel higiênico, faltaria. A razão é muito simples. As pessoas ao acreditarem que faltaria esse produto importante no asseio pessoal sairiam em manada aos supermercados e farmácias para estocar o produto. Essa compra exagerada e inesperada esgotaria todos os estoques e muitos ficariam sem o “precioso” produto.
O sistema bancário já não depende de papel moeda como antes, mas se um banco começar a parecer insolvente, ele certamente quebrará. Não há liquidez que resista à incerteza ou desconfiança.
Contas nacionais e seus indicadores não escapam desse processo.
Juros não decorrem da decisão de um bando de banqueiros reunidos numa sala da Faria Lima.
Juros – assim como preços de ativos ou comodidades – decorrem de fatores estruturais e expectativas. O coletivo espera algo, então as consequências resultam a partir disso. Por mais que se mude o presidente do Banco Central, por mais que se promovam colegiados forçados no COMPOM, a expectativa da dívida será inevitável.
Se todos esperam, inclusive o próprio Lula, que o governo continue gerenciando o país com déficits primários ou na conta final com juros, os resultados no “mercado” serão os mesmos.
Discursos de palanque e piripaques não afetam o mercado. Algum governo, de qualquer tendência ideológica – que crie a expectativa de um gerenciamento correto e responsável das contas públicas – esse governo irá mudar o mercado.
Se em nossas casas, não importa se mais ricos ou mais pobres, gastemos mais do que recebemos, a consequência será aumento da pobreza.
Se o governo insistir em distribuir uma riqueza que não vem sendo criada, a mágica (de que um crescimento virá a seguir pela ativação econômica) será frustrada. Esse sofisma ideológico de que ao distribuir recursos sem aumento da produtividade e do trabalho será, como vem sendo faz décadas, um terrível e mortal fracasso.
Como na medicina, chá de camomila é gostoso, mas não cura câncer nas tripas.
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